CIDADE DE OLHÃO: O REGRESSO DOS AFLITOS
(entre o guiness da exclusão e o mito ilustrado da qualidade de vida)
Os mitos sempre surgem nas aflições e são populares porque sempre as aflições afectaram o povo.
Criámos todas as floripes e todos os meninos dos olhos grandes para justificar o medo e a impotência de lutar contra o desconhecido que nos aprisionava... como se tudo se resumisse a uma sensação de fado, destino ou má sorte. Eram histórias que escondiam a ameaça da noite e protegiam, sobretudo as mulheres e as crianças, dos acréscimos de sofrimento – os homens sujeitos aos caprichos do mar ou, na pausa de ficar em terra, às rixas das bebedeiras institucionalizadas que amontoavam dívidas e dependências, ou ainda ao consolo fugaz dos peitos esqueléticos das outras mulheres, as da vida, as da rua ou as da noite. O embrulho da humilde casinha era a única segurança mesmo com a barriga em jejum já na esteira ou quando se sofria em silêncio abafando todas as violências e todas as violações. A todo o custo preservavam-se os breves momentos de paz e descanso pois amanhã era mais um dia de luta pela sobrevivência, na escravatura da fábrica, na venda suada do peixe ou na perseguida actividade da esmola, só tolerada nos dias santificados da caridade cristã.
Todos estes, muitos, eram os excluídos, e na verdadeira selva da exclusão, os mais aventureiros e espertos promoviam também os mitos para assegurar o sucesso das suas actividades, também de exclusão, mas que funcionavam como complemento de ganha-pão – o contrabando das ruelas, das vielas, dos saltos ágeis de açoteia em açoteia...
Os tempos mudaram. Poucos contribuíram para a mudança para muitos alcançarem liberdade, igualdade de direitos e a fraternidade dos primeiros voos. Gritaram quando todos se amordaçavam no silêncio. Resistiram quando todos obedeceram. Lutaram e construíram a mudança quando todos esperavam a salvação. Estiveram presos para que muitos reivindicassem a qualidade de vida já em cómoda liberdade, nas manifestações, nas associações, nas comissões de trabalhadores e de moradores. Foram torturados para que os amigos, os vizinhos, as mulheres, os maridos e os filhos não fossem torturados também. Estiveram fugidos para que um dia todos regressassem à terra que os viu nascer... e pensou-se que o tempo dos excluídos terminaria. As políticas sociais incluíram todos na saúde pública, na escola pública, na segurança social pública. O trabalho foi regulado e humanizado. Passaram a haver tempos livres e espaços para a sua ocupação. As autarquias e as populações construíram juntas novas casas, novas estradas, pavimentaram-se as ruas, levaram a luz, a água, as casas de banho, os esgotos a todos os cantos, recolheram e começaram a tratar os lixos... muitos pela primeira vez praticaram o valor da palavra informação, da palavra vocação, da palavra opção, da palavra futuro, da palavra vida.
E hoje? Depois da luta e da conquista de direitos porque regressa a aflição e a exclusão? Depois de vencermos a noite, porque vivemos o medo e a apatia? Que novos mitos nos consolam a alma já gasta e nos cegam a vontade de mudança? Com toda a formação e informação que recebemos, saberemos processar a reflexão, decidir livremente, (mais directamente) “separar o trigo do joio”?
São afinal de contas décadas de abuso, de abandono e de negligência... o povo, de protagonista transformou-se em reserva eleitoral e em ratio passivo que se equaciona nos cálculos de produção, de consumo, de despesa e de receita num balancete de casino; a cidade e os recursos, de palco e motor de desenvolvimento transformaram-se em postal ilustrado, em holograma mitológico oferecido como campanha interna e externa; o edificado e as actividades tradicionais, de marca de identidade transformaram-se em ruína histórica, ironicamente homenageada (o cubismo foi traído pela construção vertical da cidade “árida e moderna” e pela especulação dos solos, o pescador foi desprezado e é hoje tratado como “índio folclorizado, separado da caça”, o artesão morreu e foi despojado do papel de transmissão de toda uma herança cultural, as festas populares foram substituídas pela técnica massificada do espectáculo fácil e importado), o social e o cultural, de base de actuação transformaram-se em acessório para promoção das lideranças, dos apadrinhamentos e dos clientelismos.
Criou-se uma sociedade em risco, desmobilizada pela atomização dos interesses e dos sonhos, pela nova escravidão do consumo e da competição individual a todo o custo, pela desestruturação da economia local que implicou movimentos pendulares de trabalho e a inerente rendição ao lar como espaço dormitório de descanso e de recuperação de energias, pelo tempo apressado, dos contactos artificiais, do imediato tecnológico e dos media do entretenimento, que desvirtuou os convívios, a vivência do espaço público, os projectos colectivos, as trocas intergeracionais de afectos. E a realidade, como seria de prever se as previsões não fossem só equacionadas do ponto de vista material ou do crescimento, está aí - os maiores índices de desemprego, de precariedade e de pobreza (rendimento social de inserção, mendicidade, endividamento, cortes de água e luz em famílias carenciadas), as novas migrações externas e internas sobretudo de população jovem, a persistência de situações de violência doméstica, alcoolismo e toxicodependência, da pequena criminalidade, da iliteracia, abandono e insucesso escolares, de fome e de má nutrição, de negligência e maus tratos nas crianças, de conflitos geracionais (com incidência no abandono dos idosos) e culturais (população local versus etnias minoritárias e imigrantes) que, a pouco e pouco, vão extravasando o domínio do simbólico.
Tal aconteceu porque o local repetiu as lógicas do global dominante, porque a gestão foi entregue aos números e à burocracia, aos tecnocratas, engenheiros, gestores e contabilistas de um só olho que sempre se entretiveram com malabarismos financeiros para disfarçar a má organização da coisa pública, aos especuladores das oportunidades e dos investimentos duvidosos que alimentaram riquezas fáceis e estatutos mal aprendidos de como se sobe na vida, aos políticos de feira que apregoaram progresso mas que venderam recursos alheios e ofereceram ocupações, empregos, cargos, assessorias, em troca de mais poder e controlo, aos pequeninos chefes que se deslumbraram com o pequenino poder de mandar, de manipular e de vigiar o exigido reconhecimento, aos dirigentes locais (reais ou disfarçados de oposição) que se apoderaram do património de todos como se fosse propriedade privada, que criaram os muros da reprodução dos interesses, afastando todo o incómodo das reais necessidades e expectativas da população, da partilha da decisão e da participação democrática (funcionam em gabinetes, negoceiam projectos e parcerias como agentes empresariais ou como mecenas da boa vontade, criam artificialismos e máscaras que inventam novas marcas de ilusão e imagem, como quem escolhe paisagens e vende retratos a retalho, constróem portanto novos mitos).
Os mitos... em época de crise, de aflições e de pânico do próprio poder.
A floripes é agora uma espécie de promotora turística que, na versão de estátua ou de agente de viagens, inicia a assombração dos viajantes pois os pescadores já deram o que tinham a dar. Oferece o corpo traduzido na elegância e beleza da ria (formosa na aparência mas poluída no conteúdo), em versão de esplanada ribeirinha ou no recato protegido de um hotel erigido como castelo (onde toda a gala acontece e todo o fogo de artifício faz sonhar a plebe), utiliza pornograficamente as ilhas, de roteiro a roteiro, de gasóleo a gasóleo, sem a chatice da facturação reguladora, beija com sabores de gastronomia local quando a desinterdição das toxinas o permite, publicita o seu leito ancestralmente degradado como o “nicho de mercado” de todos os recordes (o melhor festival do marisco, o folar maior do mundo, a mais simpática sala de visitas). O menino dos olhos grandes, que continua a inchar quando lhe pegam, tornando-se peso insuportável, chama-se agora investimento externo empresarial, servindo lucrativamente negócios de construção e de simpático empreendedorismo da família que o adoptou e de todos os seus amigos, mas quando algo corre mal, na sua postura de coitadinho, é o povo que o sustenta, à custa de todas as taxas e impostos municipais que até a água tributa. Todos estes actores fazem parte de um conto que é o mito da “cidade da qualidade de vida”, onde toda a gente vive, com a Alice, num “país das maravilhas” cheio de sorrisos encantados, de gente prestável e típica, de criados que servem caprichos, de artistas que se vendem para abrilhantar salões alheios, de benfeitores que acodem pobres como se fossem animais domésticos. Até há um “ministério” da qualidade de vida e um “site colorido” que promove os restos do que ainda não foi destruído ou do que se conseguiu recuperar como se a fachada da casa tivesse que ser limpa e se escondesse toda a realidade debaixo do tapete ou no quintal das traseiras.
Neste filme continuaremos a viver com a exclusão ao lado como se nada fosse, como se fosse residual, como se qualquer assistencialismo de fachada pudesse resolver problemas que são estruturais mas que a gestão tradicional incompetente não reconhece nem tem instrumentos técnicos e de planeamento para os reconhecer e, em sequência, os combater. Os cidadãos vão-se amontoando nos pântanos da exclusão - pobres que já vão ao lixo, novos pobres que já vão à sopa, pessoas portadoras de deficiência ou incapacitadas que esbarram quotidianamente nos obstáculos e nos preconceitos que lhes retiram mobilidade, emprego e ocupação, doentes mentais sem tratamento transformados nas ruas em “bobos” ou “figuras típicas”, pedintes de todos os credos e motivações.
Há que resistir aos mitos e voltar a pôr a população e os recursos no centro – formação, informação, mobilização, participação, associativismo, protecção e recuperação, prevenção e emergência, dignidade e respeito, valorização cultural e económica do local. A actividade política só é importante se servir os cidadãos e, frente a frente, lado a lado, compreender os seus anseios e críticas, modelar as prioridades, intervir com eles na mudança e construir com eles a verdadeira e quotidiana qualidade de vida. Se não continuaremos na senda dos aflitos, sem Senhora que nos proteja pois a crise parece também ter chegado aos milagres...