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O “PREÇO” DA ÁGUA

O “PREÇO” DA ÁGUA

 

As questões ligadas à falta de água, no Algarve, estão na ordem do dia.

Ao abrigo do PRE (Plano de Recuperação Europeu) anunciam-se algumas grandes obras: captação de água no Guadiana (Pomarão) e seu encaminhamento para a Barragem de Odeleite, pelo que será necessário abrir cerca de 30km de valas para as condutas, provocando a destruição de todo o coberto vegetal que encontrarem no caminho; nos centros urbanos substituição de condutas antigas responsáveis por cerca de 25% de água perdida, o que constitui uma medida adequada; por último, a construção de uma dessalinizadora no Concelho de Albufeira que irá produzir água doce para cerca de 1/3 das necessidades de consumo urbano mas implicando, ao se utilizar esta tecnologia, elevados custos ambientais – a água do mar vai ser sugada arrastando consigo micro-organismos, plâncton, pequenos peixes, larvas, afectando ecossistemas marinhos, vai ser lavada quimicamente, passando depois por um sistema de filtragens à pressão, com elevados custos de energia, e, em termos de produto final, obtém-se assim uma parte de água doce e outra parte de salmouras que serão devolvidas ao mar com todos os inconvenientes que daí advêm.

Têm sido lançadas campanhas de poupança de água e, generosa e civicamente, os consumidores domésticos têm reduzido o seu consumo em cerca de 9%. Esta redução de consumo é bem vinda, mas temos que entender que a grande fatia do consumo de água é para a agricultura (cerca de 65%), e que a tendência é crescente, bastando observar-se a instalação, por exemplo, de novos pomares de abacates que proliferam por todo o Algarve. Note-se que o abacate não é uma cultura com tradições na nossa região e a massificação da sua produção, ligada a interesses agro-industriais devido à sua elevada rentabilidade económica, provoca retrocessos de sustentabilidade ambiental devido às suas elevadas necessidades de água.

Mas falemos então dos preços da água: a empresa Águas do Algarve vende a água para a agricultura a cerca de dois cêntimos por m3, vende às Câmaras a água tratada a trinta cêntimos por m3 e estas vendem-na aos consumidores domésticos ao preço que entendem. Em Olhão, se consultarmos as nossas faturas, encontramos o valor de 57 cêntimos no 1º escalão. Segundo os cálculos que têm sido apontados a água dessalinizada terá um custo de 72 cêntimos o m3, a pagar, com toda a probabilidade, pelos consumidores domésticos.

O sector da água necessita de urgente regulamentação, não apenas na sua componente agrícola (o que produzir?), mas também nos sectores ligados ao turismo, campos de golfe e hotelaria que, como é sabido, são grandes consumidores deste precioso e escasso bem. Por outro lado, os grandes investimentos na captação e tratamento de água devem ser repensados pois, mais que favorecer grandes grupos económicos, há que colocar a hipótese de explorar recursos já existentes como o aproveitamento das ETAR’s e das suas águas residuais para rega, estratégia recomendada por instituições e organismos responsáveis nesta matéria.

 A água é um bem essencial e vital, o seu consumo não é infinito e estará sempre limitado à capacidade de produção, mas há que respeitar os limites impostos pela sustentabilidade ambiental, assegurando a sua função e acessibilidade como bem público.

 

Ivo Madeira, professor aposentado e representante local do Bloco de Esquerda