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QUE LUGAR PARA O TURISMO NO DESENVOLVIMENTO DE OLHÃO? QUE TURISMO PROMOVER?

QUE LUGAR PARA O TURISMO NO DESENVOLVIMENTO DE OLHÃO?

QUE TURISMO PROMOVER?

 

O fenómeno do turismo, pelas características potenciadoras do crescimento económico em múltiplas actividades paralelas e complementares que arrasta e pelas oportunidades de investimento e de emprego que estimula, constitui uma aposta especializada e estruturante da economia regional, reunindo o Algarve condições de destino privilegiado (clima; sol e praia; serra e paisagens rurais; parques naturais ligados à ria, aos sapais e à orla oceânica; particularidades culturais, da gastronomia e dos usos e costumes à arquitectura típica do edificado rural e urbano). Seria portanto atractivo “aceitar” que tamanha “galinha dos ovos d’ouro” fosse solução quase imediata e fácil para a resolução de problemas estruturais que vêm deprimindo o nosso concelho – desemprego, exclusão social, baixos índices de atractividade económica, baixos níveis de polarização (movimentos pendulares crescentes por motivos de trabalho, centralidade perdida para núcleos urbanos concorrentes, fraca produção de riqueza e de emprego). É o que se parece adivinhar na maior parte das propostas das candidaturas à gestão do futuro da autarquia – apregoa-se incansavelmente o fomento do turismo como estratégia principal, propondo-se até uma aposta na massificação da oferta em turismo balnear e de recreio/náutico com exploração intensiva da ria e das ilhas. Por exemplo, António Pina, candidato do PS à autarquia, chega a afirmar que o poder da mudança cabe aos investidores e não à câmara (que se limitaria a criar condições e a captar interesses) e que a grande indecisão se coloca entre dois caminhos a seguir – acelerar o vai-vem das visitas diárias às ilhas ou permitir a exploração de eco-resorts na ilha da Armona ou noutros palcos semelhantes.

Faz-me lembrar a cegueira dos exploradores de ouro – a avidez do que é fácil à frente dos olhos, mas a falta de visão de um futuro de esgotamento, de crime ambiental envolvente, de não retorno da dependência económica e de emprego criada, de bolsos cheios para uns quantos e de incerteza ou risco para a grande maioria. Parece que a opção é adquirir uma camisa rosa ou uma camisa laranja e não perguntar se o centro comercial que se criou é de facto a opção acertada... ou como se estivéssemos a jogar monopólio – compro duas casas ou um hotel para potenciar a cobrança do imposto de passagem?

Explico muito sinteticamente para que se vá percebendo todo este jogo...

·        Uma câmara não é uma empresa.

·        O futuro do concelho não é um negócio.

·        A população de Olhão não se vende a mercados de trabalho exclusivos, redutores, estranhos e flutuantes  baseados no lema “servir a sorrir” ou “dar ostras a quem já tem as pérolas”.

·        A população de Olhão também faz parte da procura turística (o tal turismo local, deliberadamente esquecido, mas que também promove a economia do meio – compras para as férias, aumento do consumo na restauração e nos transportes) e da própria oferta (reforço das economias domésticas pela complementaridade do aluguer de casas, das receitas das micro-empresas de transporte, do escoamento do pescado e do marisco capturados por via artesanal).

·        Os turistas, eles próprios, também foram “crescendo” – rotinas e confusão nas férias? trabalhar exclusivamente para o bronze, mergulhar, nadar, tirar compulsivamente fotos, enfardar nos restaurantes e apanhar bebedeiras de caipirinhas ao pôr do sol não será agora um roteiro banal, monótono, desinteressante e um perigo para a saúde e para o culto do corpo? passar pelos sítios e comprar avidamente o que há em todo o lado esperando a simpatia, a tolerância resignada, a mudez e o favor subserviente, não constituirá já uma prática intolerável que só poderá interessar viajantes com handicap cultural que vêm dos subúrbios pelas “gajas” ou pela “cerveja barata”?

·        O barlavento algarvio já foi destruído, descaracterizado e empobrecido de modo suficiente para que o sotavento aprendesse o básico – chega de centralismo de sol e praia, chega de hotéis megalómanos que apenas serviram interesses da construção civil, chega de poluição, de erosão, de pressão urbanística, de aculturação de usos e costumes, de adulteração das paisagens.

 

Aqui em Olhão diz-se: “Mê menine, e o tê pai?” e nada mais a propósito – não foram contadas histórias “especializadas” sobre os novos rumos para o turismo, sobre os novos perfis e expectativas dos turistas, sobre a questão da sustentabilidade do desenvolvimento turístico, sobre a necessidade da diversificação e complementaridade da oferta, sobre o perigo dos constrangimentos internacionais (políticos, económicos, financeiros, de segurança – aquele aspecto insignificante da “crise” que tanto nos tem apoquentado), sobre o interesse do multiculturalismo e da troca cultural (a outra face da globalização)?

O desenvolvimento de Olhão não se faz na realidade esquecendo o turismo. Mas tal não significa nem pode significar que se opte por colocá-lo no centro como “eucaliptal de mercado”. Primeiro estão as pessoas e os recursos do meio que devem alicerçar as economias locais e as identidades. Trata-se de trabalhar toda uma “oferta sustentada e equilibrada” em termos de polarização de marca distintiva (para seguir o léxico habitual) fundada na especificidade, na proximidade e na qualidade (cuidados ambientais, patrimoniais, de paisagem; contactos e trocas culturais estruturados – de usos e costumes, de acontecimentos festivos, de produtos e confecções alimentares e artesanais genuínos, de quotidianos vivos e vividos em contextos de trabalho, de convívio e de experiências múltiplas; regulação dos mercados das agências de viagens e imobiliárias vincando os interesses locais). Simultaneamente trata-se de enquadrar neste propósito todo o investimento na área e conceber as receitas como acréscimos de dinamização económica (emprego; iniciativas empresariais qualificadas) e de captação de poupanças para o investimento privado e público e para a revitalização do consumo local.

Se elegermos a competência técnica, o rigor e o alcance dos projectos, o planeamento e a visão de um futuro de qualidade, a missão de servir os interesses das populações e a sustentabilidade dos recursos naturais, os olhanenses ficarão cá. Os filhos dos olhanenses não partirão. Os próprios turistas gostarão de Olhão. Passarão por cá e regressarão. Os que interessam. Os locais, os nacionais e os “novos turistas”. Aqueles que cada vez mais viajam pelo conhecimento, pela curiosidade cultural, pela troca de experiências, pelas vivências dos espaços equilibrados, bonitos, limpos, saudáveis e ricos em testemunhos passados e presentes – da açoteia e mirante à platibanda e chaminé rendilhada, dos vestígios romanos à arte das ruas, da galinhola de água ao burro, da chata à carroça, do alcatruz à enxada, do moinho de água ao moinho de vento, do berbigão à alfarroba, do xarém ao cozido de grão, da “truta” ao bolo de figo, do chorão ao tomilho cabeçudo, da algazarra ao silêncio, da ria à ribeira, das ilhas aos cerros, do sueste à brisa serrana...