FAZER POLÍTICA EM OLHÃO:
O RESPEITO, ALÉM DE BONITO, É SINAL DE COMPETÊNCIA...
O pequenino poder de quem tem a vaidade de se insinuar como grande constrói-se assim, sonso, manipulador, em jogo de espelhos, na pose de “bico de pé” no trono e de “abertura populista” na rua, naquele figurino de ilustre barba que pretende significar experiência e sabedoria, no vício de ego que centra nos gostos pessoais e nos cansativos auto-elogios a decisão e o empenho na vida pública, enfim... um cenário de quem gostaria de ser monarca e de ter súbditos de vénia a louvar os feitos (entre o sebastiãozinho que queria ser o herói de alcácer e uma qualquer maria rodeada de bolachas culturais que fazem o gosto ao dente). É de facto uma saladinha megalómana que nos pretendem servir: por cima a folhinha de alface que representa a aparência de ser saudável e o aproveitamento do quintal; por baixo as carnes frias que são sobras ricas da refeição anterior e o tal caviar importado às escondidas; como tempero os condimentos mais agressivos do mercado - a cebolinha da lágrima fácil que lamenta quem não contribuiu para a ementa, o fio de azeite para amaciar quem come do mesmo prato mas só às vezes, o sal e a pimenta para mascarar o sabor a frigorífico e propagandear o falso paladar, o toque de malagueta para provocar no extremo quem se pensa estar pouco habituado aos choques gastronómicos, e... aquele vinagrete de mau perder, aprendido ou de carácter, que resume tudo a golos ou a medalhas. Ah! A saladinha também traz um prémio em jeito de bolo-rei – o “alfinete” de mestre de culinária para desempenhar funções nesta grande cozinha que tem muitos departamentos.
É resumindo uma questão de respeito... em primeiro lugar pelos pares (pois em democracia há pares e não vassalos, valetes, servos da gleba, pajens ou moços de estrebaria, nem tão pouco bombistas radicais, donzelas aprisionadas ou dom quixotes insatisfeitos); em segundo lugar pelas pessoas, pela sua história e identidade, pela sua dignidade e direitos (pois em democracia há soberania popular, há cidadania, há participação e envolvimento na mudança, não há iluminados ou pseudo-esclarecidos que, por graça divina ou por inspiração individual, decidem destinos colectivos ou arrumam paisagens como “queridos que mudaram a casa”). A história e o património não se vandalizam, adulteram, inventam, abandonam ou destroem nas memórias; consideram-se, promovem-se, revitalizam-se, vivem-se porque aproximam pela experiência e pela troca. A ria e o ambiente não se recuperam para servir interesses privados ou pessoais; despoluem-se, naturalizam-se, requalificam-se ou reabilitam-se para serem devolvidos a todos como fruição, como trabalho e como lazer. A pobreza e a miséria não se escondem; previnem-se, irradicam-se e superam-se de fora e de dentro. O desporto, o recreio, a cultura, a solidariedade social não se apadrinham ou subjugam em fito de dependência; apoiam-se em cooperação e rede, estimulam-se, educam-se e capacitam-se na autonomia, na divulgação, na criação e na participação. A economia, o investimento e o emprego não se importam artificialmente nem flutuam ao sabor da iniciativa, do empreendedorismo, de arranjos negociais ou de clientelas de mercado; planificam-se e regulam-se, estruturam-se, sustentam-se nas riquezas e nos saberes locais, reorientam-se e dinamizam-se a partir do meio. A política e a cidadania não se contratualizam em compra e venda, não se corrompem na estreita visão do poder, do protagonismo ou da publicidade enganosa de qualquer eleitoralismo de pacotilha; enobrecem-se pelo debate, pelo confronto de ideias, pela crítica construtiva, pela abertura à participação, pela maturação das opções e das alternativas, pela verdadeira e responsável negociação em prol do bem-estar colectivo.
Não são lições mas princípios... e na crise da essência não é demais dar sentido e valor à palavra “fazer política”!