POR ONDE ANDA A FEIRA DE OLHÃO?
Este ano senti falta da feira de setembro, que já não antecede o início do novo ano letivo. É no decorrer das aulas e da escola que acontece, que chega a feira.
È sob a forma de registo que me apercebo da chegada da feira e de como ela toma forma nas vivências das crianças, resguardadas para sempre, sem que elas o saibam, nas suas memórias de vida, tal como aconteceu comigo. É um prazer dar-lhes sentido através da escrita. Assim: No fim de semana fui à feira com a minha mãe, com o meu pai e coma minha irmã e andei no carrossel. Comi algodão doce e a minha irmã comeu algodão doce cor-de-rosa.
O prazer de contar é tal, que se renova sem se repetir durante duas ou três semanas e, às vezes, já estando quase no natal, ainda alguém conta que foi à feira nesse fim de semana. A imaginação alimenta e alimenta-se das emoções e o que cada criança conta e reconta sobre a feira, já não é a novidade mas sim o prazer redobrado da fantasia de ter ido à feira nem que tenha sido por uma vez.
Neste ano letivo, por altura da feira, os registos soavam-me a preto e branco, por via do passeio ao parque ou das compras feitas no centro comercial.
Senhores autarcas, por onde anda a feira?
Na minha memória o espaço da feira é para sempre. O chão de terra batida, por vezes enlameado quando chovia, melhor ainda porque se tornava divertido saltar as poças, o cheiro dos fritos, dos churros, da panela do guisado que espreitava atrás dos panos e que me fazia suspeitar a pobreza. Mas eram os panos que também separavam cada roulotte da montra: cascata de objetos, alinhados, pendurados, suspensos ou dispostos no chão, em primeira fila, num amontoado aprumadamente arrumado. A feira onde as ruas separavam loiças, madeiras, tapetes, alumínios e ferramentas, bijuterias e carteiras e chapéus e sapatos. Mas o melhor estava no espaço final onde culminavam todas elas. Eram as atrações, os carrosséis, as cores, as luzes alucinantes na proporção das músicas em som estridente que se ligavam entre si, como se sintonizássemos num só aparelho de rádio todos os postos ao mesmo tempo... Parecia que o mundo inteiro cabia ali, no espaço da feira. Os bilhetes para o carrossel valiam mais que notas verdadeiras, o torrão de alicante docíssimo valia o preço de uma dor de dentes, o microfone dos vendedores das mantas de pêlo com tigres e leões que se passeavam pacificamente à largura da manta e da minha imaginação.
Aquele modo de vida tão diferente, ali tão perto da minha casa por uns tempos. Tão distante quanto o tempo que antecedia a vinda da feira outra vez.
Senhores autarcas, lembrem-se das vossas infâncias e guardem sempre um lugar para a feira, para que um dia, quando alguém voltar à sua terra, possa dizer: aqui era a feira ou, na minha terra, eu tive espaço e tempo para ser criança.
Quando abala a feira fica um espaço de memórias que constrói o imaginário de cada um de nós, ficam as lembranças. As nossas memórias também são a nossa identidade e lugares sem memória são os verdadeiros espaços vazios.
Maria .