ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE 27.04.2017
DECLARAÇÃO DE VOTO
Os deputados municipais eleitos pelo bloco de esquerda, vêm ao abrigo do disposto no nº1 do artigo 58º da Lei 75/2013 requerer a consignação em acta das razões justificativas do seu voto no que se refere à proposta nº 127/2017 apresentada pela Câmara Municipal, a que respeita o ponto 10 da Ordem do Dia -"Versão final do Plano de Pormenor da Zona Histórica da Cidade de Olhão".
O Bloco de Esquerda considera necessária e urgente a elaboração de um Plano de Pormenor que preserve e salvaguarde a identidade e o património arquitectónico e cultural únicos da zona histórica da nossa cidade.
Preservar significa antes de tudo proteger e recuperar o tecido edificado e ambiental do núcleo histórico da cidade e a sua ligação ancestral com o mar, com as suas açoteias, mirantes, ruelas estreitas, becos, arcos e arcadas, “encruzilhadas de corredores”, fachadas caiadas, reabilitando as habitações com significado arquitectónico, com as suas cantarias, platibandas, varandins em ferro forjado, portas e janelas decoradas, conservando e repondo a fisionomia cubista da paisagem urbana característica daquela zona.
Aliada à preservação do núcleo histórico, surge a necessidade de o requalificar e revitalizar, mas no sentido de melhorar as condições de vida dos seus moradores, impedir o crescente fenómeno da gentrificação, valorizar os espaços, promover ligações sustentadas entre território, as actividades e as pessoas, por forma a reforçar a coesão social e cultural. Consideramos que a preservação de uma zona histórica deve ser sempre pautada pela aplicação de uma perspectiva integrada que reabilite o edificado, os espaços envolventes e que revitalize os modos de vida e as identidades, numa dimensão histórica mas também de dinâmica multicultural, sob risco de se alimentar a segregação urbana do espaço para apropriações exclusivamente turísticas pela “expulsão” continuada dos habitantes que historicamente construíram e deram significado aos bairros.
Pese embora no seguimento da oposição popular manifestada na discussão pública do plano de pormenor, o executivo tenha retrocedido nalgumas das propostas inicialmente apresentadas, como sejam a demolição de um edifício do século XVIII para dar lugar à construção da inenarrável torre "de mirante" de 21m de altura, ou a diminuição da cércea de 12 metros inicialmente prevista para Avenida 5 de Outubro para 9,50 metros, entende-se que a versão final do plano de pormenor ora apresentada ainda não cumpre de forma adequada e cabal os objectivos acima enunciados, porquanto:
- Continua a prever-se a repavimentação da zona histórica, promovendo-se a substituição da tradicional calçada portuguesa - em vias de classificação como Património Nacional Imaterial da Humanidade - por um novo pavimento incaracterístico (com um custo orçamentado na proposta inicial de €2.086.590,00), agravando a descaracterização resultante das recentes intervenções de cariz semelhante realizadas pelo executivo nos largos históricos, sendo que a preservação destas áreas aconselharia a reposição da calçada portuguesa nos locais onde foi removida, ao invés da destruição da calçada ainda existente.
- A proposta apresentada continua a promover um aumento da volumetria e densidade do edificado não compatíveis com as mencionadas necessidades de salvaguarda e recuperação daquele núcleo histórico,permitindo um aumento do número de pisos dos edifícios existentes e prevendo a construção de edifícios de grande volumetria nos espaços identificados como "devolutos ou em ruínas"[1].
- Em termos gerais é admitido um crescimento das cérceas em todos os Largos e Praças[2], referindo-se, a título exemplificativo, o aumento generalizado da altura das fachadas permitido no Largo João da Carma[3], que contribuirá para o "emparedamento" e consequente descaracterização daquele largo histórico.
- Da mesma forma, o aumento da altura das fachadas na Avenida 5 de Outubro (nalguns casos até 9.50m)[4], acentuando os erros urbanísticos cometidos no passado, rompe ou condiciona fortemente a ligação de todo o edificado de segunda linha, com o mar, descontextualizado e esvaziando de sentido as tradicionais açoteias, mirantes e terraços.
- A proposta não contempla qualquer intervenção a nível de projectos de revitalização e valorização cultural, designadamente, de recuperação e promoção de ofícios e actividades tradicionais, de incentivo à permanência ou reintegração dos moradores autóctones e de captação dinâmica de novos moradores (jovens locais, profissões liberais e artísticas, descendentes das famílias tradicionais que sempre ocuparam aqueles bairros durante anos), o que revela a priori um completo alheamento face às necessidades de preservação identitária do núcleo e deturpação das dinâmicas próprias subjacentes ao conceito de "bairro histórico".
Como últimas notas, refira-se ainda:
- A omissão de entrega aos deputados municipais do relatório da consulta pública efectuada, sendo tal documento de inequívoca relevância para a apreciação da proposta final ora apresentada.
- A falta de acompanhamento do relatório de análise de custo benefício da proposta final do Plano de Pormenor da Zona Histórica da Cidade de Olhão[5] submetida a votação, e cuja reformulação se impunha face à desistência da construção da torre de mirante de 21 metros de altura. Com efeito, encontrando-se o custo de tal construção compreendido na verba 1.3 "construção nova-edificado" dos custos previsionais do programa de execução do Plano, com valor de Euros 2.536.000 (dois milhões e quinhentos e trinta e seis mil euros), impunha-se, desde logo, a dedução do custo correspondente a tal construção e consequente rectificação da respectiva rúbrica.
Face a todo o exposto, por se entender que a Câmara podia e devia ter ido "mais além" e que a proposta final apresentada não protege e valoriza devidamente o singular património arquitectónico e cultural do núcleo histórico da cidade, se votou contra.
Os Deputados Municipais do Bloco de Esquerda,
[1] Como se revela das plantas 2.07.1 - Dev.Ruinas.construção-R03, 2.15 Axo síntese Norte_R04 e 2.16 Axo Síntese Sul_R04.
[2] Vide página29 do Relatório (R05) - Proposta de Plano ( Ajustes Finais) datado de Março de 2017.
[3] Vide planta 2.07.3.
[4] Crf. planta 2.07.4 Av. 5 de Outubro_R02
[5] doc.R_03 da proposta inicial do plano de pormenor .