Todos os dias nos recordam que “vivemos em crise” na perspectiva de uma inevitabilidade de acomodação às “novas circunstâncias”. Dizem que gastámos o que não podíamos gastar, que tivemos sonhos e que nos deixámos entusiasmar, que teremos que fazer sacrifícios para equilibrar as contas, que devemos individualmente contribuir para que o Estado se volte a “refundar” – gerir melhor as nossas economias, não desperdiçar, consumir de acordo com as nossas possibilidades, ter iniciativa e espírito empreendedor, se possível poupar, se não for possível até emigrar ao encontro das oportunidades...
O que pretendem na realidade?
· atomizar a responsabilidade da crise em cada indivíduo, absolvendo deliberadamente os verdadeiros motores do caos financeiro, económico e social em que nos encontramos (assalto do poder financeiro à legitimidade democrática dos estados sociais soberanos, insaciabilidade da especulação dos mercados bolsistas, delapidação de recursos, mau planeamento, má gestão e despesismo dos poderes públicos que, num frenesim argumentativo relacionado com as virtudes do rigor e da gestão privada, pretendem denegrir a imagem do Estado na satisfação das necessidades do cidadão para explorar antigos e novos interesses lucrativos em áreas onde já são ou querem ser os principais accionistas e técnicos especializados, onde se reproduzem os verdadeiros privilégios e as verdadeiras bolhas de riqueza);
· destruir lentamente qualquer espécie de movimentação cívica e participativa que pretenda a mudança e a recuperação de um modelo de desenvolvimento centrado na qualidade de vida, no respeito pelos direitos humanos e pela sua prática, na sustentabilidade ambiental, na promoção e reconhecimento das capacidades e competências individuais, na repartição mais justa e equilibrada dos rendimentos e dos recursos (redução do tempo livre, e logo do tempo de cidadania, pela exploração no trabalho a nível das sobrecargas horárias, da política da mobilidade e da prática da chantagem escravizante da “defesa do próprio emprego”; aposta na criação de relações de dependência no trabalho que impõem o medo e a insegurança, mutilando a liberdade da expressão individual e cívica nas escolhas e nas participações colectivas; deturpação do conceito de cidadania activa, instaurando o “falso voluntariado” e a “falsa parceria” para criar novas dependências face às expectativas de uma futura integração profissional ou para pincelar “vazios de ideias e de projectos estruturais” com iniciativas fundadas no simples assistencialismo, sempre louváveis mas inevitavelmente temporárias e aparentes).
É ao fim ao cabo uma filosofia política que se alastra, do poder central ao poder regional e local, cujos agentes se sedimentam na lógica de reprodução de um poder continuado onde se acumulam os vícios da inércia e do aproveitamento político, da aparência e da imagem, do clientelismo e dos favores entre pares, para já não falar das lógicas individuais de mobilidade económica e social que aproveitam malhas de reconhecimento nos aparelhos partidários e nos organismos políticos e que, não raramente, se fundam nos esquemas de “chico-espertismo” relacionados com a “pequena ou grande corrupção”, com o endividamento público e/ou com a prevaricação ou contorno das leis.
Lutar contra este “status quo” é não só um dever de cidadania como também uma acção imprescindível para devolver dignidade e sentido à expressão fazer política, pese embora as mediáticas pressões para desvirtuar ou para diminuir toda a actividade relacionada com a gestão da coisa pública e social e com a transformação da realidade social dum ponto de vista mais estrutural – a despersonalização do acto político associada ao abuso de uma análise primária generalizante (“são todos iguais”; “o que todos querem é poleiro”; “são todos ladrões e querem é tacho”) leva à demissão cómoda da intervenção e da participação políticas (“eles, os corruptos, que tudo podem”; “nós, as vítimas da corrupção, que nada podemos fazer”); a crise dos valores políticos e das ideologias, relacionada com a massificação das consciências e com o poder da sociedade de consumo (competição, individualismo, valorização do ter em relação ao saber e ao saber fazer), levam à apatia e ao conformismo em relação ao futuro e à possibilidade de funcionar em conjunto em prol da solidariedade, da gestão e participação colectiva, da mudança social evolutiva; a crise da democracia institucional (problemas relacionados com o cumprimento de direitos constitucionais, enfraquecimento das lógicas de representação, corporativismo que desvaloriza a importância dos movimentos cívicos e de cidadania), leva à invenção de novas mobilizações que, apesar de fundamentais, não têm impacto nos modos de vida globais, funcionando como uma espécie de canalização da experiência cívica para a auto-satisfação e para a redenção individual (surgem micro comunidades experimentais de solidariedade social, de defesa dos direitos dos animais, de comércio ou de produção agrícola e artesanal, de acções ambientais, cujo sucesso depende das adesões voluntárias e de uma maior ou menor resistência aos constrangimentos dos poderes legais e políticos instituídos, pois o “isolamento da boa vontade” acaba por se resignar “às decisões externas” sem as transformar).
Porque fazer política é afinal funcionar no colectivo e transformá-lo, identificando necessidades e problemas, congregando esforços e recursos, mobilizando projectos e estratégias para a sua resolução ou minimização, é de toda a pertinência criar e operar a diferença, procurando a dignidade da acção política, o propósito do serviço público, a luta pela justiça nas oportunidades e na qualidade de vida para todos. Trata-se também de devolver dois princípios essenciais ao acto político : o protagonismo da cidadania (da democracia participativa) e a sustentabilidade do desenvolvimento (do trabalho de investigação/acção em rede e em parceria que articule o bem-estar nos mais variados aspectos da sua concretização: transparência e informação, emprego, revitalização económica, inovação e criatividade, acesso à educação, saúde, cultura, desporto e lazer, participação e reestruturação comunitárias, defesa da qualidade ambiental e do equilíbrio paisagístico, preservação do património e reforço das identidades)
PARTICIPAR NO BLOCO DE ESQUERDA E CONCORRER POLITICAMENTE NAS AUTARQUIAS significa:
· mobilizar um conjunto de participações colectivas (cívicas, independentes, partidárias) com base na liberdade de expressão, na discussão e organização de ideias e nos ideais de desenvolvimento sustentável do meio, recusando opções centralistas de estratégias programáticas partidárias pré-concebidas muitas vezes estranhas às problemáticas do meio;
· construir projectos estruturantes realistas, recusando a promoção de intenções programáticas populistas quase sempre desarticuladas e sem possibilidade prática de concretização, de propaganda fácil ou roçando a megalomania dos interesses das lideranças;
· respeitar a independência e as dinâmicas de desenvolvimento local e promover parcerias activas de qualidade e não impor receitas e protagonismos já esgotados que apenas facilitam convencionalismos de funcionalidade, redes de interconhecimento consolidadas e sem visão de futuro ou sem alcance transformador do meio;
· valorizar e mobilizar os recursos humanos locais, colocando a experiência de vida, a competência, a indignação, a criatividade para a mudança em lugar do “carreirismo e do clientelismo”, do medo e da passividade ou apatia;
· promover a transparência e a avaliação conjunta das práticas políticas, lutando contra a lógica de perpetuação acrítica do poder fundada nas manobras financeiras e contabilísticas, no despotismo mal esclarecido, no fechamento deliberado dos circuitos de informação e de comunicação e na falta de respeito pelas opiniões e contributos dos cidadãos;
· enriquecer a campanha política com princípios de animação socio-educativa e socio-cultural, encarando-a como uma oportunidade para debater e esclarecer ideias, para enriquecer e motivar as participações colectivas, onde todos sejam necessários e funcionem como equipa, recusando as estratégias de puro marketing político e eleitoral que encenam as lideranças e “mastigam e deitam fora” as audiências (pois concebem-nas como instrumentos de ascensão política e nunca como eleitores que é sempre necessário ouvir para modelar e satisfazer expectativas).
JÁ BASTA SERMOS UM CONCELHO “DORMITÓRIO”...
NÃO ADORMEÇAS NO CONFORMISMO! JUNTA-TE A NÓS E LUTA!