“Fuzeta e zona ribeirinha de Olhão – como os desígnios positivos de uma europa solidária e de bem-estar se rendem aos interesses do mercado, da especulação financeira e do crescimento a todo o custo”
Em pleno debate e decisões sobre os destinos da europa e sobre as futuras opções governamentais, nada melhor que partir das transformações recentes da realidade que nos rodeia para reflectir sobre as políticas de ordenamento e desenvolvimento do território. Cada vez mais se observam decisões que correspondem a visões e propósitos de uma ideologia europeia tecnocrata e redutora e que deturpam deliberadamente aqueles que, na origem, seriam os propósitos fundamentais da Europa da paz e da prosperidade: a melhoria das condições de vida e de trabalho dos povos na linha da atenuação das desigualdades sociais e da redução das diferenças entre os mais ricos e os mais pobres; o aprofundamento da solidariedade entre os povos, associado à consolidação da paz e da liberdade, com respeito pela sua história, cultura e tradições; a inclusão da protecção ambiental como desígnio de sustentabilidade.
Independentemente das polémicas negociações aquando da entrada de Portugal na CEE (que especializaram e afunilaram o país na vocação turística estrita, desvalorizando as potencialidades e experiências nos sectores da pesca, agricultura e indústria tradicional – conserveira, têxtil, calçado, alimentar, construção e reparação naval, entre outras), constatamos…
Olhão e Fuzeta, territórios de características únicas com vocação ligada à ria e ao mar, não escapam a tamanha “epopeia” e o recente apetite pela especulação turística vai-se fazendo sentir…
- em primeiro lugar os habitantes são utilizados na “marca”, como isco de nicho de mercado diferenciador e argumento de defesa patrimonial: “bairros históricos de arquitectura popular única”; “gastronomia ímpar ligada ao aproveitamento dos recursos locais e à dieta mediterrânica”; “mercados e feiras locais, colorido, linguajar e humor do quotidiano”; “usos, costumes, tradições, artesanato e lendas, práticas e imaginários colectivos, ricos e atrativos”. Cedo no entanto se descobre que todo o potencial identitário é apenas chamariz e que somente é protegido nas memórias e nos painéis fotográficos que publicitam a chamada “alma do concelho” ou a “história que naturalmente se vai perdendo”.
Sem perder tempo e investimento com a preservação e recriação participada do património comunitário, sem sequer entender que a procura turística é informada e cada vez mais anseia o intercâmbio e participação culturais, os programadores oficiais apenas pretendem recordes de procura turística e explorar investimentos relacionados com logística de acolhimento e de acomodação, sujeitando o futuro à novidade do momento. Por feliz acaso, são os visitantes e turistas (agora habitantes locais sazonais) que recuperam o edificado, exploram pequenos negócios tradicionais ou protagonizam atividades artísticas que enaltecem a história e identidades locais (casas cubistas, construções urbanas tradicionais, moinhos e adegas, restaurantes/bares típicos, oficinas de artesanato ou de pintura, retratando paisagens naturais e humanas locais) e que, em movimentos de cidadania partilhados com a comunidade, reagem contra a sua adulteração (petições, revitalização da agricultura tradicional e biológica, revitalização do pequeno comércio, revitalização do movimento associativo e das festas e tradições). Querem os habitantes ao lado e foi por isso que vieram, mas o pequenino poder nem por vias indirectas pretende actuar: os “vizinhos reformados e envelhecidos” dos bairros históricos são expulsos para as periferias ou para os lares pela ausência de políticas de apoio ou subsidiação de rendas que poderiam garantir a permanência da chamada “alma” ou a futura ocupação das gerações descendentes ou de jovens locais; a especulação imobiliária e dos solos faz aumentar o preço da habitação tornando as áreas de apropriação popular como apetecidas e afastando os habitantes tradicionais do centro da cidade para os bairros sociais construídos nos arredores; a relação prática e simbólica com a ria e o mar é deliberadamente roubada – o marisqueiro, pesca tradicional e mobilidade de transporte (povoações litorais – ilhas-barreira) sofrem entraves, vigilâncias apertadas e negligência na protecção ambiental (problema dos esgotos; tráfego turístico que se intensifica e, com ancoragens intensivas, destrói pradarias marinhas; autorização de novas explorações com espécies invasoras que degradam o equilíbrio do ecossistema; transformação de viveiros e de bancos de pesca em “territórios” de aquacultura intensiva ou de investigação científica); o mercado das “vistas panorâmicas” leva à construção desenfreada de hotéis, resorts e apartamentos na linha ribeirinha, corrompendo a silhueta da construção tradicional em encosta ou em mirantes e açoteias e o direito de usufruto dos primeiros e genuínos habitantes que construíram as suas casas na ligação e homenagem ao mar e à ria, razão histórica do povoamento (na Fuzeta, primeiro pela construção de apartamentos de alguns andares na marginal, depois pela construção do Del Mar Village e dos novos empreendimentos “Viver a Ria”, afectando a “alma do bairro dos pescadores” e a sua proximidade da ria; em Olhão, pela construção em “muro” do Real Marina Hotel e apartamentos limítrofes, primeiro a oeste e agora a leste, próximo da PSP); os novos arranjos urbanísticos e paisagísticos das zonas ribeirinhas que pretendem o lazer ou o alojamento turísticos e que afastam ou afastarão as tradicionais sociabilidades e práticas populares (“calçadão, esplanadas e solários” em Olhão que deslocarão o convívio dos homens do mar e os seus bancos de jardim virados para a ria; afectação da mobilidade e do abastecimento dos mercados tradicionais do peixe e da “verdura”, assim como do comércio de rua tradicional nas zonas limítrofes)
- em segundo lugar a questão ambiental, cujo conceito inerente de sustentabilidade foi roubado para o campo financeiro e das contas orçamentais, passando a significar não a garantia do bem-estar das futuras gerações, mas a garantia do investimento futuro sem precauções como prioridade a todo o custo ou, no caso contabilístico, a legitimação da austeridade e dos entraves ao papel do Estado ou do investimento público, visando a abertura ao crescimento da iniciativa privada (sem preocupação com a redistribuição dos proveitos, logo com o desenvolvimento) e perpetuando a dominação do sul à hegemonia global do norte num contexto de reprodução do capital financeiro e especulativo.
O ambiente torna-se sobretudo argumento de reserva territorial para futuros PIN (projetos de potencial interesse nacional) e, como a subordinação aos interesses do turismo é a nossa marca, cedo se compreendem as autorizações de construção em parques naturais ou em áreas protegidas de domínio marítimo ou de reserva agrícola. O ambiente torna-se sobretudo conceito decorativo, deslocando-se a sua génese colectiva para o cuidado particular. Vejamos…
Em suma, cabe a cada um reflectir e decidir por uma nova política europeia e nacional que não comprometa o futuro da qualidade de vida das populações e o ambiente. É urgente recuperar os conceitos e as práticas do desenvolvimento sustentável (e não do redutor crescimento económico sem justiça social e protecção ambiental) e aproximar os povos pelo intercâmbio cultural e pela atenuação das desigualdades sociais, melhorando condições de vida e acessibilidades e defendendo as identidades e o património local e regional. É esse o país e a Europa que queremos: a da paz, da liberdade e do “equilíbrio” social e ambiental.