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PALCOS DA ESQUERDA E DA DIREITA – AFINAL QUEM É QUE “TRAÍU, TRAI E TRAIRÁ” O QUÊ E EM NOME DE QUEM?

o rei vai nú!

PALCOS DA ESQUERDA E DA DIREITA –

AFINAL QUEM É QUE “TRAÍU, TRAI E TRAIRÁ” O QUÊ E EM NOME DE QUEM?

 

 

Entendo que quando o umbigo é demasiado grande não se perceba que, a pouco e pouco, as calças vão caindo e toda a natureza exposta cause espanto – “o rei afinal vai nú!” E quando se acorda tarde lá vêm os chavões de sempre: a culpa é dos alfaiates, do povo que protesta e se indigna na rua, daqueles que sempre lutaram nas ideias e nas propostas para a mudança mas que foram deliberadamente afastados, banidos, “deserdados”, excluídos, desconsiderados, chamados de utópicos e de idealistas, de sonhadores e de irrealistas... Agora o povo ouviu e decidiu. Aplaudiu e deu-lhes voz. E agora... pasme-se... descobriram os senhores que todos afinal pertenciam à mesma família! Num arrebate de emoções mal digeridas, quando o trono cai, é desses a culpa maior, porque isto do sangue à nascença mexe com as pequeninas consciências – regressem, somos agora irmãos arrependidos que todos recebem de braços abertos (a mãe, o pai, a tia, a madrinha, o sobrinho, os tios, todos os primos e até alguns cunhados por afinidade),  tomem lá pedacinhos de feudos, ministérios e lugares... lembrem-se do início dos tempos - a família nunca se trai!!!

 

Afinal quem é que traiu, trai e trairá o quê e em nome de quem? Quem pertencerá ou não há mesma família?

O que é isso de famílias de esquerda e de famílias de direita quando a prática normal do poder é deitar fora as ideologias, a coerência dos princípios, matar o ser em troca do ter, matar a consciência em troca do interesse e da compra e venda dos favores, matar projetos estruturais de desenvolvimento e de ordenamento em troca do crescimento empresarial e dos negócios ou da captação de investimento a todo o custo, matar emprego local especializado em troca de emprego precário sazonal, matar a vida da cidade em troca do dormitório e das migrações, matar a qualidade de vida de todos em troca do bem-estar de alguns, matar a história, o património e o ambiente em troca da pornografia do lucro e da megalomania da construção, matar a cidade em troca de um postal ilustrado ou de um nicho de mercado, matar o povo em troca do servilismo ao turista mal informado, da “massa”, ou ao investidor amigo... o que é isso de famílias de esquerda e de famílias de direita quando, em mais de trinta anos sem ter que dar troco a ninguém, se fizeram cruzadas pela “câmara santa” com cavaleiros ali do lado do pôr do sol (quando se está realmente com os olhos postos no pote dourado do astro-rei ao meio dia), sempre com o preconceito de novo rico que afasta a maralha do nascer do sol por sujar as mãos na terra, na ria ou nos pergaminhos da denúncia. 

 

Sempre foi complexo definir os valores de esquerda ou os valores de direita e das respectivas famílias. Tanto mais que a sociedade actual se caracteriza por novas estruturas familiares que caminham entre a monoparentalidade da descoberta de novas liberdades e modelos de pensamento ou o regresso às antigas famílias alargadas porque o pão é preciso e a luta pela justiça tem mais força quando caminhamos lado a lado juntos... mas só participa nestas jornadas de descoberta quem partilha dos mesmos ideais ou das mesmas vontades, quem pratica o social antes do indivíduo, quem pratica a justiça social antes da abertura aos mercados, quem pratica a igualdade de oportunidades antes do empreendedorismo, quem pratica a verdadeira solidariedade e cooperação antes da esmola caritativa pontual, quem pratica a defesa do ambiente e do património como bens públicos antes da possibilidade de alguma concessão ao prazer privado, quem trabalha com e para as pessoas antes do dar às pessoas o que se pode, quem ouve, discute, analisa, propõe e partilha (com rigor, transparência e competência) antes de assumir certezas e metas comprometedoras (tantas vezes escondidas e tão “religiosamente lunáticas”), quem põe como prioridade as pessoas, os recursos, o local, antes da atracção externa e da conquista de turistas e investidores...

Deixo à consideração de todos essa eterna questão das esquerdas e das direitas, não por pensar que não tem importância... mas por pensar no carnaval, nas máscaras, nas encenações, no teatro da vida... e também por pensar que a aprendizagem da verdadeira política ligada à cidadania, à participação, à dignidade, ao respeito pelo outro e pela causa pública, ao quotidiano dos problemas, das necessidades, das expectativas, dos sonhos, das lutas, é um processo dinâmico e transformador para homens de boa vontade. Aproximem-se de onde quer que venham desde que a reflexão crítica sobre o meio exista e que partilhem genuinamente os projetos de mudança... na prática poderemos caminhar juntos sem preconceitos... na teoria, por coerência, que se encontrem, digerindo as evidentes contradições... Quanto à “família”: que se reciclem na teoria e na prática pois a humildade também se aprende e a perda do privilégio também humaniza...

 

Agora o povo ouviu, sentiu e decidiu. Amanhã voltará a ouvir, sentir e decidir com uma grande mais-valia – a possibilidade de conhecer quem traiu, trai e trairá a sua confiança porque felizmente acabou o reino de todas as verdades escondidas e as verdadeiras assembleias são aquelas onde todos falamos, participamos, avaliamos e decidimos com a informação que é devida!

 

 

 

ALGUNS APONTAMENTOS DE REFLEXÃO IRÓNICA

SOBRE O DISCURSO DE TOMADA DE POSSE

DO NOVO PRESIDENTE DA CÂMARA DE OLHÃO (*)

 

- agradecimentos aos amigos e familiares (grato por se lembrar tão exaustivamente dos verdadeiros amigos e familiares)

 

- novo ciclo (os pontos “negros” do passado não são alvo de correcção – partamos para mais aventuras! É um verdadeiro ciclo preparatório)

 

- vestir a camisola do bem-comum e do bem-fazer pelos nossos: melhorar a sua qualidade de vida, melhorar a nossa cidade (pequenos pormenores: não devemos esquecer que os “nossos” quer dizer o povo do concelho de olhão, que a “nossa cidade” será todo o território e que a “qualidade de vida” é um conceito global que também se refere à justa redistribuição da riqueza, à inclusão social, às questões da identidade e do património cultural e ao necessário equilíbrio ambiental, nem sequer referido, de certeza por lapso)

 

- há um novo paradigma na gestão autárquica (não sei se é novo, mas fundamenta-se nos princípios da ciência empresarial ou das técnicas de gestão aplicada, quase se confundido a câmara como uma empresa, o concelho como uma parcela do mercado e o cidadão ou público-alvo como agentes exclusivamente económicos)

 

- disciplinar, organizar e melhorar as esplanadas, o estacionamento, a venda ambulante, toda a frente ribeirinha será, tal como prometi, a nossa prioridade (actuar na imagem do postal ilustrado é uma verdadeira prioridade de desenvolvimento sustentável, local e participado... até se observa uma ligeira preocupação em integrar minorias...)

 

- mas não nos podemos esquecer das políticas sociais, de educação e de habitação social – muito tem sido feito em Olhão... temos o maior parque habitacional social da região (já agora não convém esquecer esse pormenor sem importância de maior, quando os índices de desenvolvimento humano do concelho derraparam a olhos vistos; mas pronto, temos feito tanta coisa! E até temos o maior parque de habitação social com tão boas condições e com tão eficaz planeamento que a marginalização e marginalidade sociais nem se notam, facto para acrescentar ao orgulho de termos o melhor sol, a melhor gastronomia, a melhor paisagem, a melhor maravilha de Portugal, o melhor festival do marisco ou o maior folar... enfim, perspectivas de concurso)

 

- iremos continuar a apoiar (apoiemos sempre de fora! Para quê serem as próprias pessoas a criar, a participar, a responsabilizarem-se se gostamos tanto de dar presentes; é tão humano termos ao nosso lado dependentes da nossa boa vontade sem autonomia ou sem projetos próprios e conquistados...)

 

- servir melhor o munícipe, o investidor, o empresário ou tão-sómente o turista que pretende conhecer a nossa cidade (servir o munícipe realmente está em primeiro lugar nas preocupações... mas a insistência no servir faz descobrir a sua importância real na frequência da referência aos restantes elementos, agrupados facilmente numa grande categoria que é o EXTERIOR – é de lá, da tal “coisa global” que vem tudo: o interesse pelo nosso cantinho, o investimento que é por genética sempre bom e que também por genética ou efeito natural trará o nosso emprego, o nosso sustento, a nossa paz; depois, esses profetas do nosso tempo, sempre tão cumpridores e eficazes e tão amigos do desenvolvimento e do país que tem progredido a olhos vistos, sem responsabilidades algumas nos constrangimentos e nos retrocessos pois sabem gerir tão bem todos os nossos recursos, que fazem inveja ao Estado, palco de todos os castigos e de todas as más gestões e corrupções – os imaculados empresários!)

 

- gabinete de apoio ao investidor (engraçado: outros propõem gabinetes de emergência social)

 

- território de oportunidades: frente ribeirinha com todo um investimento turístico e de lazer, desportos náuticos, turismo, aquacultura e produção de bivalves (mais hotéis, mais tráfego na ria, mais pressão humana – não faz mal que o ecossistema resistirá... afinal a nossa ria não tem problemas de espécie alguma a não ser as barras para a acessibilidade... o que é isso de poluição, de descargas ilegais de esgotos, de mau funcionamento das etar’s... que importância é que tem a pesca tradicional a desaparecer e a qualidade do pescado a ser afectada...)

 

- diplomacia económica – fixação de empresas e crescimento económico empresarial – inverter o flagelo do desemprego (vamos lá mais uma vez seguir os passos do nosso amigo portas lá quando andava nos negócios estrangeiros: venha o investimento da china, dos emirados, da itália, da alemanha, com receitas de exploração de mão-de-obra barata qualificada ou a qualificar... não faz mal ser só no Verão ou haver amuos e transnacionalizações surpresa... emprego local? O que é isso?)

 

- quinta de marim, terrenos entre o hotel e a psp, terreno junto à EN 125 – possibilidades que olhão tem para oferecer aos seus investidores (sugeria que fosse de mão beijada tal como outros tantos terrenos que eram habitados indevidamente por populares que têm o defeito de não saber apreciar as lindas vistas da nossa e não deles ria formosa... e já agora: os parques naturais e o domínio público marítimo já estão tão esquecidos que qualquer dia, por uso, acabam por deixar de ser lei e aí toda a facilidade do mundo para resorts, eco-resorts, sport-resorts, hostels-resorts, spas-resorts, business-resorts e tantos mais que queiramos criar; o futuro pertencerá realmente aos audazes porque os capazes são espécies em vias de extinção) 

 

(*) LER DISCURSO ORIGINAL NA ÍNTEGRA EM    

http://www.cm-olhao.pt/en/discurso-tomada-de-posse