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A miopia e a corrupção

A MIOPIA E A CORRUPÇÃO

 

 

Chamo-me Fernando José Apolo Nunes, nasci em Olhão, tenho 49 anos e desde muito cedo comecei a viajar. Estudei em Lisboa, licenciei-me em Engenharia Civil, no IST e a sorte ou o acaso levou-me a tratar por “tu” a hidráulica marítima e fluvial.

 

 

Não sou filiado em nenhum partido político. O que me leva a escrever este artigo (o 1º da minha vida, deste género) é a grande amizade que tenho e que prezo com o Rogério Neto, e porque finalmente sinto capacidade e força na minha escrita para transmitir algo.

Ao passar com alguma frequência pelo desolador Porto de Recreio de Olhão, achei que teria a hipótese, finalmente, de fazer algo pela minha terra, dado o potencial náutico que Olhão possui e não é, de todo, aproveitado. A beleza da Ria Formosa é incrível, a nossa gastronomia é de longe invulgar e excelente, o nosso feitio é mel para os “camones”. Enfim, as vantagens de ser Olhanense são mais que muitas, pensava eu.

E assim pus-me a caminho de uma solução para transformar um parque de estacionamento de embarcações, num Porto de Recreio capaz de fazer frente às melhores marinas europeias. Não pensem que estou a pôr a fasquia muito alta. Comparo Olhão a Saint-Tropez. E claro que podíamos sem qualquer problema criar um nível de excelência de serviços tão bom ou melhor que esta vilória francesa que, há largos anos atrás, não passava de uma aldeia piscatória…

Fiz-me à “estrada” e há cerca de 5 ou 6 anos, solicitei ao Exmo. Presidente da Câmara Municipal de Olhão uma reunião, com o propósito de lhe apresentar um projecto de rede de marinas que estava a desenvolver juntamente com um investidor espanhol, que já tinha em exploração 3 marinas na Galiza.

O Sr. Presidente recebeu-nos (a mim, ao investidor espanhol e a outro técnico português), ouviu com algum agrado a nossa ideia, que passaria por uma abordagem ao IPTM (Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos), onde tenho muitos amigos e conhecidos, de Norte a Sul do País. Ficámos de nos reunir outra vez. Essa 2ª reunião nunca mais se realizou.

Não contente com este desfecho, enviei uma carta ao IPTM, manifestando interesse em investir no Porto de Recreio de Olhão, ao abrigo da Lei da Água, tendo como contrapartida a exploração dessa unidade por um período de 30 anos.

Meses depois, recebi uma carta do IPTM indicando que essa minha pretensão não podia ser atendida pelo facto desse organismo estar a elaborar um concurso para o efeito.

Esperei mais uns meses pelo famigerado concurso e, quando ele saiu, já me encontrava a trabalhar no grupo onde actualmente me encontro, cujo um dos objectivos era expandir a sua internacionalização e diversificar a sua área de negócios.

Coordenei uma equipa de 2 arquitectos, 3 engenheiros e um economista, para apresentarmos uma proposta ganhadora.

Para além da nossa proposta, foram entregues mais 3: Marlagos e Albumarina, empresas que exploram a Marina de Lagos e a de Albufeira, respectivamente, e uma empresa constituída por investidores olhanenses e farenses (6) conjuntamente com a empresa municipal que gere o Festival do Marisco (Fesnima).

Eu não queria acreditar. É claro que a Marlagos e Albumarina têm curriculum e experiência mais que suficiente para gerir marinas ou portos de recreio. Agora uma empresa municipal (privada, mas de capitais públicos) a imiscuir-se com empresas privadas? Foi de todo uma surpresa. E surpreendente foi o desfecho do concurso: A Fesnima & Cia ganhou o concurso.

A minha mãe contava-me que ouvia no café as mães dos ditos investidores a vangloriarem-se com a proeza dos seus rebentos, dizendo que os seus filhos estavam tão contentes e felizes que até já discutiam quem ficaria com a loja A, B ou C, a construir no porto.

É claro que os restantes concorrentes não esperaram 1 segundo e contestaram a decisão. O IPTM respondeu que mantinha a decisão e que as reclamações não tinham qualquer fundamento. A segunda reclamação, do grupo que represento e da Marlagos foram simplesmente demolidoras. Tão demolidoras que o IPTM ficou sem dar qualquer resposta. Resultado: o Porto de Recreio de Olhão continua como nasceu: um parque de estacionamento de embarcações, sem serviços e comodidades para os nautas, de costas voltadas para a população e para a unidade turística limítrofe. Enfim, uma desilusão.

Como é que é possível tanta miopia? Como é possível estas “pequenas autoridades” privarem um concelho e uma região do livre funcionamento do mercado, olhando exclusivamente para o seu umbigo?

É uma pena. Esta corrupção passiva, de influências e de promessas está podre. Até fede e eu sinto o cheiro, apesar de me encontrar a mais de 8.000 km de distância. É uma pena a pequenez e a avidez pelo poder cegar as pessoas. Para poucos estarem confortavelmente acomodados, outros sentem-se incomodados e a maior parte desesperados.

Gostaria de ter sido eu a escrever o seguinte texto, mas não fui. Alguém se antecipou quase 150 anos:

"A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva."

Eça de Queiroz, in 'Distrito de Évora (1867)

 

PS: entretanto, o grupo onde me encontro inserido, construiu e encontra-se a explorar a “Marina de Gaia”. Convido-os a visitarem este local. Apesar de muito recente, já é um marco de excelência na náutica de recreio. Agora estou, para além de outros projectos, a estudar outro para Angola. Afinal a rede de marinas começa a ser uma realidade. Pena não passar por Olhão