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regressei a olhão, mas a minha vila tinha desaparecido...

olhão antigo

regressei a olhão...

 

 

"- regressei a olhão, mas a minha vila tinha desaparecido. não havia cinemas, nem rua das lojas, a barreta e o levante tinham desaparecido. e todos os meus lugares preferidos, como se a história da cidade tivesse sido varrida, reduzida a prédios e supermercados. vi gente vagueando, esta sempre foi terra de vagueantes, mas agora em corpos sem rosto e rostos sem nome. os meus amigos não estavam por ali. fiquei confuso e pasmado. o que era campo à volta (das minhas memórias de infância) estava pavimentado, cheio de guindastes. tudo consentido por um município sem orgulho, como dantes, só esta relação em que há uma fina linha entre o amor e o ódio . " 

(inspirado na canção 'my city was gone' - the pretenders)

 

"- não me lembro se o dia primeiro era da criança, mas também o que é que isso podia interessar enquanto tal. junho era o mês em que acabavam as aulas e começavam as férias grandes de verão, os dias longos das idas para as ilhas, a rua da minha avó enfeitava-se para os dias e noites dos santos populares. só sei que vivia num mundo muito próprio. sonhava acordado. e não podia ser outra coisa que um ser assim livre. podia até ter um ar perdido, mas por dentro não podia ser mais feliz - "

 

in Postais da Costa Sul, Pedro Jubilot, edição Junho 2013