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ENTREVISTA INTEGRAL DE ROBERTO SILVA AO JORNAL "O OLHANENSE"

Candidatura BE Olhão - "dar voz a quem a não tem!"

ENTREVISTA INTEGRAL DO CABEÇA DE LISTA DO BLOCO DE ESQUERDA À CÂMARA MUNICIPAL DE OLHÃO

 – JORNAL “O OLHANENSE”

 

  • Quem é (nome do Candidato) e outras indicações que julgar dever transmitir

 

O meu nome é Roberto Silva e tenho 40 anos. Sou Licenciado em Línguas e Comunicação pela Universidade do Algarve e empresário no ramo do material de escritório e da informática. Em 2007 iniciei atividade empresarial na cidade de Olhão sob forma de franchising, a Cartridge World. À época fomos convidados a patrocinar o Sporting Clube Olhanense e aceitámos. Lembro-me bem - tínhamos acesso aos camarotes com direito a comes e bebes e a nossa faixa estava exposta no campo. Após 10 anos como franchisado resolvi não renovar e criei uma marca registada – Print & Office Supplies®, ficando no mesmo local até hoje, pois foram os habitantes e as empresas do concelho que me fizeram crescer como empresário.
Em 2008 comprei um T2 na Dâmaso Encarnação, que estou a pagar, e desde então Olhão é a minha cidade.

 

  • Porque se candidata à Presidência da CMO?

Primeiro porque deve de haver uma força resistente às maiorias instaladas que tenha espírito crítico e de análise do desenvolvimento e que contribua para a mudança, em prol da sustentabilidade e da identidade do meio e da qualidade de vida de todos e todas. Mas posso enunciar vários motivos: a oportunidade de poder fazer algo mais pelo município e pelas suas gentes; por exemplo, Olhão está repleto de desigualdades sociais e há que mudar isso, já que todos somos agentes da sociedade com capacidade para alterar o rumo da mesma. Falo do desemprego, do emprego precário, da falta de habitação, de habitação em condições ou de habitação acessível sobretudo para os jovens, da exclusão social e dos problemas de toxicodependência, da falta de dinamismo da economia local sujeita à monocultura do turismo massificado, por exemplo.
A força do Bloco de Esquerda é outro pilar da minha candidatura. Um Movimento de cidadãs e cidadãos que adotou a forma legal de partido político. No BE de Olhão temos representados diversos sectores da sociedade que trabalham em equipa, desde advogados a professores, empresários a trabalhadores, alunos do Ensino Superior e até pessoas na reforma. Isso dá-nos uma visão abrangente das necessidades e especificidades dos problemas e das injustiças sociais que nos afligem.

 

  • Comente o trabalho realizado pelo actual executivo, quer pela positiva, quer pela negativa.

 

É difícil comentar todo o trabalho de um mandato. Há sempre maneira de fazer mais e melhor, até porque a população está mais atenta aos atores políticos e às suas decisões, e isso é visível nas redes sociais. No entanto, o episódio da Bela Olhão, adquirida com dinheiros públicos e pretensamente reutilizada para a instalação de serviços camarários, traduz uma jogada de interesse imobiliário cujo Edil se deveria abster, intervindo sobretudo a nível da regulação e do planeamento; já se prepara um novo PDM para a alteração do uso dos solos, onde se fala em hotéis e apartamentos, com ligações à reutilização da DOCAPESCA para fins de turismo náutico, o que significará a aposta cega no turismo de massas e a destruição, mais ou menos lenta, das atividades relacionadas com a ria e o mar, especialização ancestral da cidade. O cargo de autarca deve servir o interesse público e colmatar as assimetrias no próprio Concelho, assim como planear, ordenar e preservar o território, quer a nível do edificado, quer a nível do ambiente e da protecção das atividades económicas tradicionais, como a pesca e a indústria conserveira, passando pelos ofícios e comércio local.

No ano 2019 o Município teve como receita direta em IMI e IMT cerca de €14 milhões e parece-me que os impostos cobrados aos munícipes não são canalizados para um melhoramento dos espaços públicos, para a sua organização e planeamento. A qualidade de vida do cidadão é relegada para os ‘últimos cartuchos’ do mandato, iniciando-se um frenesim de ajustes diretos, consultas prévias e obras cirúrgicas, na tentativa de arrecadar mais uns votos. Na minha opinião essa não é a maneira correta de agir e tornou-se um vício por essas Autarquias país fora.

 

  • Fale-nos sobre o que pretende fazer, se for eleito e qual os desafios para Olhão.

 

Acabar com os esgotos diretos para a Ria e regular o tráfego náutico (sobretudo turístico) nesse berçário de espécies cujo ecossistema deverá ser preservado. Convido o leitor a verificar no site do IPMA a proibição de apanha de bivalves em toda a frente de mar da cidade. A área (Olhão3) encontra-se a vermelho pois os valores são superiores 45.000 bactérias E.coli por 100g de carne de marisco. São factos, não opiniões. E o mais grave é que Olhão 3 situa-se, precisamente, entre duas ETAR.
A habitação acessível e o combate à exclusão social são já pontos bem definidos nas reivindicações do BE. Também é preciso apetrechar as escolas do município com computadores e software modernos adaptados aos novos métodos de trabalho que as tecnologias nos proporcionam, mas ao mesmo tempo programar espaços e atividades que atenuem desigualdades de aprendizagem, situações que exigem metas de inclusão articuladas com os modos de vida e vivências das zonas residenciais mais precárias e problemáticas. Apostar nos jovens e estimular a que, uma vez acabados os estudos, se fixem no Concelho criando os seus postos de trabalho. Não tem lógica o Estado investir na sua educação e depois ver os filhos da terra partirem em busca de melhores condições de vida lá fora.
O espaço público está ao abandono, os estacionamentos e a circulação automóvel caóticos, há ruas que nem têm passeios para os transeuntes - Rua do Caminho de Ferro ou Rua António Henrique Cabrita – que são passagem de dezenas ou centenas de alunos diariamente. Não temos espaços verdes suficientes e o número de árvores na malha urbana é pouquíssimo. Faz falta uma faixa de rodagem para bicicletas e local para parquear as mesmas. Devemos facilitar os acessos a quem pedala e caminha entre bairros, o centro, as escolas e as zonas de serviços e comércio.
Ainda, e como empresário, sei perfeitamente que o investimento privado é deveras importante para a revitalização da economia. Temos que criar condições para que empresas se fixem no Concelho e mantenham os postos de trabalho, programando novas áreas económicas de interesse para o desenvolvimento sustentável e revitalizando as áreas da economia local em crise. Era bom reativar alguma da indústria que gira em torno do mar pois são empregos de ano inteiro. É necessário defender a agricultura tradicional com a garantia do escoamento dos produtos com reconhecida qualidade nos mercados locais, evitando opções por sistemas de agricultura intensiva de grande dimensão que esgotam os solos, exigem mais rega, que atentam contra a prevenção das alterações climáticas e problemas inerentes (escassez de água, incêndios) e que muitas das vezes recorrem a trabalho emigrante sem direitos, roçando a “escravatura”.  O turismo não é solução para tudo até porque muitas atividades na sua esfera são sazonais e de outubro a maio a produtividade cai a pique e aumentam os desempregados (sobretudo o modelo já gasto do turismo de grande hotel, balnear e de marina).  E para ser beneficiário do fundo de desemprego são necessários 360 dias de trabalho por conta de outrem com registo de remunerações nos 24 meses anteriores à data do desemprego. Devemos apostar no turismo que se interligue com as comunidades locais e com as suas economias e que reduza os impactos ambientais negativos – turismo cultural ou de curta estadia na cidade, ajustado à dimensão do concelho; turismo ambiental e rural regrado (ex. agro-turismo), turismo de animação ligado às tradições locais.

O desenvolvimento sustentável do concelho de Olhão não pode ser hipotecado – na economia justa e nos direitos e qualidade de vida das populações. Dêem mais força ao Bloco para que todas as mudanças sejam adequadas e pensadas ao serviço de todos e todas!