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O “AFUNILAMENTO ESTRATÉGICO DA LÓGICA EMPRESARIAL” – PRINCÍPIO E SOLUÇÃO DA CANDIDATURA PS PARA GERIR O FUTURO DE OLHÃO

(a propósito das entrevistas de António Pina à comunicação social)* 

Todos ficámos a saber que o candidato PS à Câmara de Olhão, o licenciado em economia António Pina, puxando dos “louros académicos” e da “experiência profissional” em jeito de receita de marketing eleitoral, salienta como principais atributos a sua dita (e assumida como distintiva!) capacidade de gestão, a predisposição simpática da sua comunicação interpessoal (principalmente junto dos mais jovens, “meninos dos seus olhos”) e a sua consciência dos condicionalismos da crise, repetida vezes sem conta nas suas “narrativas” e porventura bem interiorizada através da leitura atenta dos discursos reducionistas e simplistas dos seus amigos predilectos (nomeadamente de Camilo Lourenço, de quem se diz admirador, o tal senhor que afirma pornograficamente que a análise histórica das sociedades é uma perda de tempo, fazendo justiça às bíblias econométricas que, num excel papagueado e nas gramáticas das leis soberanas do mercado e do direito soberano comunitário, lá vão construindo o “verdadeiro conhecimento”).

Esperaríamos que apenas fosse a obediência a “uma imagem da moda”, criada deliberadamente para conotar um estilo de liderança com base na tão maçuda, falsa e injusta tese da “credibilidade da gestão privada” (oposta ao chamado “laxismo  e falta de rigor e de eficácia do Estado”) que tanto tem envenenado e convencido a opinião pública... Mas não... Vem-se a confirmar que é o que realmente o senhor (desculpe, jovem senhor) pensa!

Toda a visão, estratégia e propostas fundam-se no léxico empresarial e de marketing operacional que afunila e deturpa a concepção de desenvolvimento integrado, equilibrado e sustentado que deveria presidir a todo e qualquer projecto de gestão e de serviço públicos (lá está outra vez a “maçada” da Constituição):

·        fala-se em desenvolvimento como se fosse apenas “crescimento empresarial sectorial”, esquecendo a sua dimensão essencial que é a qualidade de vida e todos os domínios interligados que o estruturam como um todo (sociedade, economia, cultura, tecnologia, participação política e cívica, ambiente);

·        assume-se como estratégica central “fazer o trabalho de casa (...),  que consiste em angariar novos investimentos, ligar sectores de actividade, dar visibilidade e promover a cidade junto dos agentes económicos”, esquecendo-se que todas as boas práticas da gestão pública informada não advêm das finalidades importadas de qualquer departamento de vendas ou de imagem de uma qualquer empresa, mas sim resultam da metodologia do planeamento integrado (maturação de problemas, necessidades e potencialidades, investigação-acção participada e protagonizada pelas populações que leva a definir metas, objectivos, estratégias que valorizem pontos fortes e resolvam pontos fracos numa lógica de prioridades, prática do terreno sempre crítica e avaliadora dos constrangimentos para realizar mudanças ajustadas e sustentadas);

·        define-se o objecto de acção da gestão camarária como “nichos de mercado”, salientando exclusivamente a lógica interventiva dos “agentes económicos” e da “procura turística”, o que...

a)      por um lado, reduz as preocupações de actuação política aos âmbitos de actuação da gestão empresarial (onde todos os factores realmente importantes são considerados externos e influenciadores, como o quadro jurídico, as necessidades das populações aqui transformadas em alvos de estímulo ao consumo, a questão dos impactos ambientais e societais, como por exemplo o equilíbrio ecológico, a formação, o emprego); realmente é grave esquecer que o principal objecto de acção camarária é a sociedade como um todo e o ser humano como centro (não só os agentes económicos) e que o pressuposto essencial da gestão pública é o desenvolvimento, ou seja, dotar determinada sociedade do máximo de capacidade para satisfazer as necessidades e aspirações da sua população (básicas universais, psico-sociais e culturais) num sentido harmónico, equilibrado e sustentado (sem comprometer as necessidades das gerações futuras);

b)      por outro lado, reduz as preocupações de actuação política à criação de “uma imagem de (pequena) marca que atraia e satisfaça necessidades externas (de turistas, de investidores)”, o que, para além da pequenez e do desenquadramento de análise relacionado com uma concepção quantitativa do crescimento (aumentar os índices de atractividade empresarial e de investimento), massificada do turismo (continuar a captar o turista efémero do alojamento, da restauração, do passeio do sol e da praia) e algo provinciana e servilista da especialização oferecida (o orgulho bacoco, cego e de “concurso populista” de achar que temos “o melhor festival do marisco, a ria mais bonita, a mais bela cidade para mostrar, a população mais simpática para receber e agradar”, quando a realidade mostra a degradação da zona histórica, os atentados de poluição à ria e o abandono e desemprego relacionados com a pesca e com a actividade mariscadora tradicionais, a exclusão social e pobreza cada vez mais evidentes), revela a opção por uma preocupante dependência económica exterior sem apostar na “maturidade, sustentabilidade e autonomia da própria oferta local” - o desenvolvimento não aparece fundado em primeira instância nas riquezas, potencialidades e necessidades dos recursos endógenos como condição para o bem-estar das populações (revitalização da economia local, do emprego, inclusão social, promoção da cultura e da especificidade identitária, das sociabilidades locais; protecção ambiental e ordenamento do território); também grave, não se percebe que as expectativas para a viagem levam o turista actual a procurar as realidades e não as encenações, o contacto multicultural e não o “folclore institucionalizado”, a particularidade dos modos de vida e do edificado tradicional e não “os hotéis luxuosos e cómodos” ou os “hostels segregacionados das zonas recuperadas” que entretanto foram esvaziadas de todo o pulsar quotidiano e de todas as actividades tradicionais pela expulsão das populações dos bairros históricos para as periferias; em suma, a falta de visão pode pôr em risco o futuro e afundar Olhão no destino, que não se quer traçado, de uma cidade dormitório, onde é mais barato dormir, onde é mais barato pernoitar e onde todo o potencial de investimento e de receitas captadas pela procura turística se esvai como areia entre os dedos, pois a oferta desestruturada não permite a sua retenção e alargamento, não estimula a recuperação, reconversão e criação de empresas locais e de emprego – o apregoado “efeito multiplicador”, outro dos chavões da lógica empresarial, não é natural  nem funciona automaticamente, sendo antes fabricado e só existindo se previamente se observar uma economia, uma sociedade, uma cultura, uma paisagem e um ecossistema ambiental estruturados, articulados e sustentados como um sistema de equilíbrio.

Pois é. Mais do mesmo não fica bem. Mais de trinta anos para perceber o que correu mal é tempo mais do que suficiente para aprender e para mudar... na realidade da experiência de vida o que conta é trabalhar para a verdadeira mudança, para a melhoria da qualidade de vida, para o enriquecimento das vivências colectivas, e desacredite-se todo aquele que pensa que “ser jovem, simpático, bem-disposto, bem-humorado, amigo do seu amigo” é condição única e suficiente para protagonizá-la. O “novo” é apenas “mais-valia” quando historicamente reflectiu sobre o passado e quando, no presente, viabiliza valores, estratégias e recursos que realmente pretendem intervir nas estruturas e nas práticas como um todo, com conhecimento, criatividade e profundidade, sempre com o futuro melhor como meta. Por isso toda a mudança deve ser evolutiva, positiva e sustentada. Mudança, afinal, não é imagem...

Rogério Paulo Neto

(*) entrevista ao jornal  O Olhanense / entrevista ao Oje (ver  http://www.oje.pt/esp--de negocios/noticias/olhao-quer-desenvolver-frente-ribeirinha