OLHÃO – PROMOÇÃO DE UMA POLÍTICA CULTURAL OU CULTURA DA PROMOÇÃO POLÍTICA?
Apesar de tudo Olhão ainda respira nas vivências identitárias que resistem à normalização do quotidiano – sobrevive o poder de expressão do espaço público das ruas, das esplanadas, do comércio de proximidade que invade mercados, praças, bancas em jardins e avenidas, tascas e restaurantes, e todos os convívios e encontros multiculturais, a espontaneidade das conversas que, em qualquer contexto, recupera as aprendizagens e o enriquecimento cultural sem fronteiras, o reconhecimento dos parentescos e das histórias de vida que integra cada um e abre portas a quem vier por bem.
Todavia, para além das memórias, a identidade só se fortalece com base na participação colectiva, na experimentação simbólica do espaço e das relações, na revitalização das interacções tradicionais e na construção de novas redes de criatividade e de inovação que permitirão o sentimento de pertença a uma história que se vai construindo e a um espaço que se vai compartilhando. É um ponto-chave para o desenvolvimento. É um desafio para uma cidade que cresce em contornos de dormitório, onde cada vez são mais os anónimos e os estranhos, onde a apropriação do espaço se torna cada vez mais individual e egoísta.
O que tem sido feito em prol da promoção cultural das identidades?
Como avisava a canção, a restauração, em vez de madrinha do povo, tem sido madrasta.
A política cultural da cidade está ausente pois as intervenções são efémeras, esporádicas, desligadas, descontextualizadas, sem pretensão de transformar o todo pela articulação das partes. Sendo assim, as iniciativas perdem o carácter estruturante e apenas funcionam no momento e no território das imagens – diz-se que se fez, dinamizou ou desenvolveu, mas o protagonismo só se observa na construção de algumas infraestruturas e equipamentos básicos cuja concretização é deliberadamente tardia, em função de uma ideologia retrógrada e de pequeno alcance que considera a intervenção cultural como acessória, prescindível e não central ao bem-estar e à qualidade de vida das populações; o interesse é apadrinhar, patrocinar, apoiar passivamente, carimbar as iniciativas com atestados de propriedade, escondendo o verdadeiro protagonismo da sociedade civil, das associações e das escolas que, de constrangimento em constrangimento, lá vão potenciando os projectos possíveis, principalmente a nível da intervenção e integração comunitária dos jovens.
Outra característica desta pseudo-intervenção cultural do poder autárquico é a utilização dos palcos culturais para a promoção das lideranças políticas locais, como se os verdadeiros actores não devessem ser os públicos e as populações.
Quando se contrata especialização técnica para a divulgação cultural ou para a criação cultural cabe ao poder estender as passadeiras vermelhas e os holofotes que contornam as inaugurações forçadas, as sessões de agradecimento, as cerimónias, os apadrinhamentos, os louvores, como se os espaços públicos de todos os cidadãos fossem salas de visita particulares onde se recebe, em segregação deliberada, quem vem tomar um chá ou quem vem apreciar uma colecção de arte recentemente adquirida e pendurada, ou ainda assistir à projecção de filmes que ainda não estrearam em qualquer vídeo-home – trata-se de uma espécie de “novo riquismo cultural” em que a posse, propriedade e poder se confundem com a ânsia de pisar e dominar palcos de distinção, na linha de vivenciar novas mobilidades, mas sempre com a ridícula permanência de tiques e estereotipos desajustados (chegar mais tarde é etiqueta numa festa mas ofensa num concerto em espaço fechado, numa peça de teatro ou no visionamento cinematográfico; convidar, com toques de ombro, os assistentes de um espectáculo a entrar num auditório é tarefa desapropriada mesmo para qualquer mordomo convencional; monopolizar o discurso na apresentação de um artista é minimizar o único elemento relevante para o público – o criador, a criação e a história da obra).
Quando se programa determinada intervenção cultural a especialização técnica é abusadamente preterida à “iluminação déspota e provinciana” do gosto pessoal de quem manda, esvaziando-se o conteúdo e o alcance das iniciativas pois alimentar egos e protagonismos individuais e utilizar os clientelismos para reforçar o controlo e a reprodução do poder tornam-se os objectivos principais. Tal pretensão torna-se mais uma vez desajustada e ironicamente ridícula – auto-promove-se a ascensão na carreira política e pública como mais- valia cultural, premiando-se oficialmente esse atributo, esquecendo-se os reais valores culturais ou personalidades que se distinguiram ou distinguem a nível da criação ou da dinamização cultural do meio; encomendam-se “novos monumentos ou marcas artísticas” que enaltecem a história e o passado para “embelezamento paisagístico”, em contextos onde a própria história e o próprio passado se encontram visivelmente abandonados, degradados, a desaparecer, num contraste surrealista em que se promove o absurdo. Ao mesmo tempo, toda a intervenção cultural é vista como marketing estratégico no sentido de pretender “agradar e satisfazer públicos distintos”, reproduzindo a segregação cultural e atentando contra a democracia cultural, o que deriva de uma concepção simplista e naturalista da participação cultural, como se se tratasse de garantir as máximas audiências segmentadas, na lógica de qualquer empresa de cultura massificada – dá-se ao povo o que o povo está habituado a gostar; dá-se às elites as ofertas especializadas (de qualidade por vezes discutível) de acordo com as suas expectativas; não se intervém estruturalmente na preservação do património arquitectónico e na revitalização dos conjuntos habitacionais históricos porque se diz respeitar a vontade individual e a propriedade privada; não se dinamiza, apoia ou reconverte actividades e comemorações tradicionais da cultura popular (artesanato, santos populares, enterro do entrudo, feiras, associações recreativas e de bairro ou de moradores) porque os hábitos mudaram e não há interesse, sendo mais fácil a folclorização comandada do pequeno entretenimento (as marchas, o presépio vivo, os festivais de gastronomia, as exposições dos resíduos de artesanato por vezes de produção importada...); não se percebem as novas motivações da procura turística, já centradas no intercâmbio cultural genuíno e na vivência dos espaços históricos e das identidades locais, descuidando a reabilitação e recuperação urbana (edifícios e actividades tradicionais, reconversão e complementaridade profissionais dos habitantes, sociabilidades dos bairros) e investindo exclusivamente nos já gastos e ultrapassados eventos da cultura de massas (espectáculos musicais e recreativos em alojamento ou em espaço público; animação de discoteca com ligações a protagonismos mediáticos de duvidosa utilidade pública).
Em suma, o deserto da política cultural autárquica explica-se pela necessidade de criar uma cultura de promoção política (a ordem estabelecida) onde, nos palcos e na mediatização dos eventos, circulam as novas elites (os novos-ricos da política), se estabelecem e estimulam os mecanismos de controlo e de reprodução desse poder e dessa ideologia (apadrinhamentos e favorecimentos; amestração dos produtores culturais locais). Tudo o que realmente acontece é miragem (a aparência e a invenção folclórica de participação diminuta e fabricada) ou resultado de pequenos oásis que quebram a monotonia da paisagem desse vasto deserto de ideias e de práticas (as escolas, associações e organizações da sociedade civil).
A verdadeira intervenção cultural exige missão, planificação, ordenamento, metas de desenvolvimento, estratégias de dinamização e de revitalização e, sobretudo, a essencial participação e envolvimento das populações, de todos os cidadãos. Na estreiteza de visão do poder autárquico olhanense, nesta “oligarquia” de filiação e descendência consanguínea ou de aliança cujo principal interesse é a reprodução contínua, os cidadãos estão deliberadamente esquecidos e abandonados às rotinas da sobrevivência individual, até que um dia todos sejam estranhos e passivos, meros consumidores, utilizadores ou espectadores, pois as identidades vão-se perdendo a favor do falso atomismo individual. A não ser que venham ventos de mudança e que o lamento se transforme em grito!
Rogério Paulo Neto