Share |

O MERCADINHO "PEQUENININHO" DA CÂMARA DE OLHÃO – proteger que artesanato?

Pretendendo o projecto “Mercadinho em Olhão” a protecção e divulgação de "produtos de artesanato local e regional” na linha da “preservação das tradições olhanenses", seria de esperar que o visitante não se deparasse com um mercado de artesanato igual ao de sítios completamente díspares, sem a individualidade e a marca local distintivas.

De facto, o Algarve e particularmente Olhão, tem sofrido uma descaracterização medonha desde há décadas: a construção tradicional foi praticamente destruída em prol de albergues verticais e inestéticos, a paisagem foi violada para os relvados dos campos de golfe e para outros instrumentos de pressão turística massificada, a pesca artesanal, a pequena agricultura e o comércio local de proximidade foram e têm vindo a ser ofendidos sucessivamente com leis descabidas e globais; os usos, hábitos e tradições locais vão desaparecendo a pouco e pouco em prol de apostas erradas no consumismo massificado, sempre pouco esclarecido e nada amigo do que é a nossa história, a nossa autenticidade e qualidade, com riscos evidentes para a saúde e para a defesa do ambiente, em suma para o bem-estar individual e colectivo. A ideia de revitalizar as tradições comunitárias e as economias locais, aliada à promoção de um turismo de qualidade, é positiva mas só tem realmente sentido se optarmos por recuperar o legado de individualidade que esta região tem para oferecer - ofereçamos coisas que só se possam fazer no Algarve como aposta para o agora e para o depois, já que o que não foi feito no passado provou o resultado que deu...

Há quem diga que “de boas intenções está o Inferno cheio” pois na prática as potencialidades dos projectos são desvirtuadas e outros objectivos parecem emergir – interessa realmente promover a identidade, a cultura e a economia locais, ou apenas mostrar, em jeito de campanha, que se mobilizaram pessoas e que se apoiaram protagonismos, sem atender aos conteúdos das acções? Interessa realmente incentivar as produções artesanais locais e os novos criadores que foram buscar à tradição e à natureza o sentido das suas ocupações, ou apenas divulgar um “falso folclore” que deturpe a realidade (na prática as actividades tradicionais, sem apoio e reconversão, vão desaparecendo a olhos vistos) e convença enganosamente toda a procura (dos consumidores locais e dos turistas viajantes)? Interessa o conteúdo ou a forma? Interessa a mudança estruturada ou o acontecimento pontual? Interessa a qualidade ou a massificação quantificada?

Tais questões são importantes e emergem de algumas considerações que não posso deixar de lançar...

- em primeiro lugar, o facto de não se apostar na exigência da “qualidade e da autenticidade”, desvirtuando o mercadinho como uma zona de oferta e de conforto para o amante do Local, do Tradicional e do Artesanal (ver disposições do regulamento); os métodos de transformação tradicionais, competindo com a mega concorrência das grandes indústrias com o único trunfo ao dispor de qualquer pequeno produtor: a Qualidade, devem estar na base de qualquer iniciativa de apoio ao artesanato autêntico ou de raízes tradicionais; produtos “importados” ou de fabricação duvidosa deveriam portanto ser excluídos deste tipo de comércio de proximidade;

- em segundo lugar, o facto de se eliminar o “alimento” como oferta artesanal do Mercadinho (regra aliás, omissa - salvo distracção de leitura - no regulamento respectivo), o que revela não só determinada “estreiteza de análise e de compreensão” do que afinal é o artesanato, como a negligência de uma potencial imagem de marca para o concelho e para a região que tem dado provas mais que suficientes do seu enquadramento, alcance e aceitação, quer nas estratégias de desenvolvimento sustentável definidas politicamente, quer na prática da reconversão e complementaridade profissionais, na captação de rendimentos suplementares indispensáveis à qualidade de vida das populações ou na satisfação de uma procura crescente que se pauta por princípios de exigência e de qualidade do consumo.

Vou desenvolver mais este último aspecto dando a conhecer alguns projectos desenvolvidos no concelho e na região que, centrados na produção alimentar artesanal e tradicional, são, por este simples motivo, injustamente afastados de qualquer hipótese de promoção ou de comercialização locais...

A Balsa, conceptualizada e levada a cabo no sítio da Maragota, é uma produção de conservas de hortofrutícolas em forma de compotas, biscoitos ou embalagem simples de ervas secas. Por princípio absoluto, as matérias primas são de origem local e obtidas a partir de duas formas: produção própria ou aquisição a pequenos produtores locais e conhecidos. Em qualquer dos casos os métodos de cultivo são totalmente orgânicos, ou seja: tradicionais, justos e limpos. Ao mesmo tempo são usados em todos os produtos os métodos de conservação e higienização tradicionais mais adequados, como seja a secagem, a conserva em açúcar, a embalagem hermética, em vácuo e esterilizada.

Estão a ser lançados vários produtos que pretendem marcar identidades locais e especificidades naturais, como é o caso do Poema Papilar Algarvio - uma pasta de figo, azeitona britada, azeite e tomilho cabeçudo (nota: o Tomilho Cabeçudo é endémico do sotavento algarvio - existindo apenas nesse/neste local - e é altamente sensível a pesticidas agrícolas).

Neste momento decorre uma candidatura da espécie à nobilíssima Arca do Gosto da Slowfood, que reúne espécies únicas em certos locais do planeta. Já lá temos os algarvios Figo Lampo, Ovelha Churra e Batata Doce de Aljezur. A responsável pela candidatura do Tomilho Cabeçudo sou eu.

Apesar de ser legítimo interditar a venda e exposição de produtos alimentares de origem animal, produtos não embalados ou aqueles que requeiram um serviço elaborado para consumo no local, e de se compreenderem as exigências de boas condições para que o processo esteja isento de perigos para a saúde das pessoas e dos sítios (no decreto lei 209/2008, o regulador mestre da actividade da indústria alimentar, vemos as conservas de produtos vegetais que sejam devidamente embaladas com o licenciamento industrial menos moroso, mais rápido e mais isento de formalidades de entre todos; naturalmente porque está isento de perigos para a saúde pública, a não ser que esteja em más condições: neste caso mostra-o declaradamente através de maus cheiros e sabores desagradáveis - como não acontece necessariamente com os produtos de origem animal; além disto, a embalagem prévia defende-os de contaminações ambientais; outro decreto acaba por defender a autonomização notável na relação entre produtor e consumidor, o que iliba de responsabilidades a entidade promotora do evento e deixa a cargo do vendedor qualquer sanção que seja devida face à prestação de um mau serviço), apostar nos produtos alimentares como oferta artesanal é um investimento importante e decisivo e o mercadinho de Olhão não pode excluir-se desse caminho sob risco de se tornar realmente “pequenininho”.

Dou algumas ideias: porque não começa a Mercados de Olhão, que pretende a "dinamização de negócios inovadores e tradicionais, incentivando e estimulando a criação de novas actividades comerciais e contribuindo para o desenvolvimento local e revitalização da zona ribeirinha de Olhão", por apontar e angariar o melhor Folar de Olhão, os melhores Figos Cheios, o melhor Xarém, o melhor Litão, a melhor Raia Alhada, o melhor Queijo de Figo, o melhor Carapau Alimado? Porque não incentiva o uso da aplicação recente da alfarroba na alimentação humana, aliando-a a técnicas e ingredientes tradicionais? Porque não estimula a comercialização de compotas de frutos (exemplo: medronhos do Cerro de São Miguel) e legumes endémicos, apostando em rotulação manual (desenhos originais e coloridos) e em estratégias correctas de conservação e embalagem? Porque não promove a formação nas técnicas tradicionais convocando saberes ancestrais e especializações técnicas (alinhavando e cosendo a gosto vaidoso as Técnicas Ancestrais com as Soluções Actuais), como por exemplo a aplicação da técnica do queijo de figo a outros produtos?

Em suma, a oferta imediata de comida (e de bebida! pois ora veja-se a qualidade e a história perdida da produção vinícola algarvia) como produto “local, artesanal, tradicional e inovador” (regulamento do Mercadinho) não pode nem deve ser esquecida e excluída da defesa da identidade, das tradições culturais e do comércio de proximidade, pois é parte integrante do Património de Olhão, do Algarve e de Portugal - em várias das suas vertentes (natural e cultural: imóvel, intangível, tangível). 

Luísa 

(com base na mensagem original enviada à organização do mercadinho).