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JORNAL SEMPRE POR OLHÃO: Turismo, património e ambiente - que desenvolvimento?

TURISMO, PATRIMÓNIO E AMBIENTE: QUE DESENVOLVIMENTO?

 

Todos temos presente que o turismo é um fenómeno potenciador do crescimento económico e do desenvolvimento das regiões pelo efeito multiplicador de dinamização produtiva e de emprego e pela revitalização da vida das comunidades e da necessária interculturalidade que as faz evoluir.

Todavia, se todo o plano de desenvolvimento se concentra apenas na criação de oportunidades para o sector, obviando a articulação programada das suas interdependências com a economia local e com o ambiente, dando absoluta liberdade aos mercados para gerarem oferta e actuando simplesmente na promoção dos destinos (estímulo à procura, como quem procura recordes de visitantes), o fenómeno turístico pode funcionar como “eucaliptal” que seca a produtividade dos sectores tradicionais da economia, gerando cada vez mais dependências e acentuando desigualdades de qualidade de vida. Esses impactos negativos serão ainda mais pronunciados, tal como se pode vislumbrar nas grandes opções da nossa autarquia e do poder político instalado, se deliberadamente apostamos num turismo indiferenciado, de massas, de hotel e marina, cujo principal interesse é o consumo intensivo de passagem, balnear e náutico, da paisagem e do lazer, sem interesse específico no intercâmbio social e cultural e, por isso, pouco fiel ao destino não distinto de outras oportunidades similares de viagem. Geram-se assim várias dependências: sujeição à volatilidade da captação dos fluxos de visitantes (aspecto sujeito à competitividade de outros destinos, não assegurando benefícios para o futuro das economias); favorecimento de atividades económicas especulativas baseadas no investimento externo rápido e lucrativo a curto prazo, mas que enriquece apenas alguns (proprietários de terrenos, empresários de hotelaria e de animação turística, construtores civis) e causa impactos negativos no emprego (mais precário e temporário) e no poder de compra das populações (afectação no consumo de bens e serviços e do acesso ao mercado da habitação); perda de identidade e de autonomia das sociabilidades, indispensáveis ao dinamismo social e económico, causando problemas de inclusão, de participação cidadã e de projetos de vida (os processos de imitação do consumismo importado e dos “sonhos de mobilidade”, por natureza frágeis e inconsistentes, estão na maioria das vezes associados a problemas futuros de endividamento e de passividade na gestão dos modos de vida).

Não se é contra o turismo. Criticamos sobretudo a aposta nesse tipo de turismo e a ausência de planeamento e ordenamento que permita operacionalizar mecanismos de articulação e de complementaridade com os sectores tradicionais da economia local e com o ambiente, factores base para a sustentabilidade turística e do desenvolvimento. A Câmara Municipal está deslumbrada com oportunidades de negócio, defendendo interesses de mercado especulativos e colocando nas suas mãos o futuro da economia e da sociedade, lança o arco-íris do novo emprego criando a falsa segurança e o sonho da melhoria dos rendimentos. Ou seja, demite-se da sua função pública – planear a mudança, convocar os agentes económicos locais, defender e revitalizar as actividades locais, os recursos ambientais e patrimoniais na procura do equilíbrio futuro, procurar a justiça social e a igualdade de oportunidades para que a riqueza acumulada sirva o bem-estar das populações.

Mais uma vez o Bloco de Esquerda de Olhão alerta e reafirma linhas de acção para tornar o nosso turismo sustentável, ao serviço do desenvolvimento:

  • Compreender as novas motivações para a viagem (fuga ao quotidiano; intercâmbio social e cultural), centrando a oferta no que é único, particular e distintivo e rejeitando a aposta no turismo de massas (o fenómeno recente do aumento de residentes estrangeiros no concelho demonstra essa vocação e urge preservá-la e reproduzi-la, concentrando esforços na promoção de pequenas unidades de alojamento, regulando a possível gentrificação e estimulando o intercâmbio quotidiano com os modos de vida locais)

  • Investir publicamente na recuperação do património histórico, arquitectónico e ecológico (cubismo e arquitectura típica e preservação da ria formosa, do sapal e de espaços verdes complementares), o que funciona na qualidade de imagem da oferta mas também na promoção do emprego local e das artes tradicionais, da habitação a custos reduzidos para a população e da pesca e marisqueio tradicionais, no sentido do abastecimento local (candidatura a fundos comunitários, extensão da ARU, acesso a programas de reabilitação com renda apoiada, estabelecimento de parcerias com vista à despoluição da ria, tratamento e escoamento correcto de águas residuais, à reabilitação do parque natural da ria formosa e ao apoio ao escoamento no mercado local dos produtos da ria e do mar capturados de forma tradicional)

  • Relativizar a importância do turismo náutico e balnear, democratizando acessos e defendendo a vocação tradicional das ilhas-barreira da especialização turística, procurando adequar a exploração empresarial destas áreas à capacidade económica local e à defesa ambiental da ria formosa (ajustamento das infraestruturas de marina e porto a um volume aceitável de tráfego fluvial e marítimo, gestão sustentada dos transportes fluviais conciliando a mobilidade turística com a tradicional mobilidade relacionada com o sector das pescas e com os movimentos pendulares dos habitantes/frequentadores das ilhas)

  • Apostar em sectores tradicionais identitários, apoiando a dinamização de novos ofícios (mercados de abastecimento local, gastronomia local, artesanato, ofícios locais e novas utilizações, artes perfomativas e de rua, festividades locais, mercearias, comércio local), nomeadamente a nível da revitalização da zona histórica

  • Fomentar infraestruturas que controlem os fluxos e a pressão humana, no sentido da promoção da qualidade de vida para todos e reafirmando a utilização colectiva dos espaços (criação de parques de estacionamento arborizados nos pontos de entrada da cidade; gestão do estacionamento para cargas e descargas nos mercados, a conciliar com horários de interdição ao trânsito; recuperação dos jardins na defesa da sua vocação tradicional – descanso e contemplação da paisagem; parque infantil e esplanadas existentes – e criação de novos espaços verdes ou parques de lazer e de eventos nos arredores da cidade e arranjos paisagísticos, como por exemplo: passadiços pelo sapal na zona ribeirinha a oeste)

BLOCO OLHÃO – Rogério Neto