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JORNAL SEMPRE POR OLHÃO: Câmara Municipal - serviço público ou central de negócios?

CÂMARA MUNICIPAL: SERVIÇO PÚBLICO OU CENTRAL DE NEGÓCIOS?

 

A maioria absoluta do PS finalmente se assume como centralizadora e gestora dos destinos do concelho, num percurso que instala os interesses e os acordos necessários (antes mascarados numa maioria relativa que foi aprovando projectos em colaboração com alguma pseudo-oposição e que agora premeia  os serviços prestados com a integração dos ex-vereadores do PSD, para não haver dúvidas).

Da observação da cidade e do concelho já se vislumbra o modelo de crescimento – proliferação de agências imobiliárias, florescimento de empresas de restauração e de vocação turística uniforme (animação; hostels, hotéis, apartotéis e outras tantas modalidades), mais superfícies comerciais massificadas (aposta nos novos consumidores trazidos pelo turismo e no abastecimento de toda a população que ocupa espaços essencialmente dormitório fora do centro da cidade e nas periferias), impulso do sector da construção para fins de habitação privada para quem pode, segregação de espaços com vocações elitistas (primeiro a zona ribeirinha e mais tarde o tesouro apetecido das ilhas, centrados na apropriação turística massificada e na exploração do turismo náutico, com passeios, diversão, eventos de toda a ordem, possíveis prainhas para banhos de sol, resorts de aproveitamento balnear, monopolização e negócio das “vistas paronâmicas”). O povo, que só faz parte da marca como objectivo eleitoral e de marketing, que se afaste e se escondam os problemas de uma vida cada vez mais difícil e precária: que vá para os lares e centros de acolhimento, deixando naturalmente os bairros históricos; que aguarde uma oportunidade de habitação social bem longe da ria pois as memórias do mar são apenas folclore e usufruir da paisagem é só para quem paga; que se alegre nos bailes populares e na fast food, nos cafés e nas raspadinhas oferecidas nas periferias; que se entretenha em artes de rua ou na produção de grafittis, cumprindo o destino oficial de disfarçar o património urbano moribundo. A  zona ribeirinha tem de ser palco de gente fina e a inflação turística vai cumprir o papel de afastar os pequenos consumidores (tascas e tabernas já são gourmet, os mercados e os jardins a pouco e pouco devem-se esvaziar da aparência humilde e solta de quem é pensionista, de quem trabalha ou de quem abastece ou se abastece localmente, da algazarra, dos rituais de conversa exaltada a pretexto da pesca, marisqueio, vizinhança, futebol, humor de intriga e escárnio, em suma, dos usos e costumes que se dizem alma mas que se tornarão empecilhos ao cosmopolitismo bacoco de quem não quer ser incomodado e gosta de tirar selfies ou de apenas consumir)

É este o sonho do poder. Mais que defender a qualidade de vida de todos, pretende apostar nas oportunidades para os negócios, seleccionar as “forças vivas mais espertas” para o complementar empreendedorismo, escravizar a ria, o ambiente, a pequena economia local, os saberes tradicionais e toda a “alma e identidade” que marcou uma história específica e particular, aos destinos consumistas de mercados indiferenciados, especulativos e lucrativos. E pronto! O produto cresce, o consumo aumenta, a riqueza vem, os dados confirmam, mas a redistribuição dos benefícios materiais para a população local esquece-se propositadamente. Alguns prosperam e ficam reconhecidos. A grande maioria, desvirtuadas as experiências e os saberes, aumentado o custo de vida, perdido o emprego ou passando este a ser sazonal e precário, observa de longe o movimento e as transformações e sobrevive. Não faltará algum apoio residual e social para casos mais gritantes, as associações amigas voluntarizarão cabazes alimentares e cobertores para o frio, poderá ser acautelada alguma ocupação nas múltiplas empresas municipais como favor ou caridade. Vá! Foi tudo para criar emprego! Qualquer empresa visa dar em primeiro lugar emprego justo e depois é que há o propósito do lucro e dos interesses dos accionistas... se não acontecer são as vicissitudes dos mercados que levam à poupança nos salários e nas contratações... paciência... os fluxos turísticos diminuiram e há que fazer face às despesas...

Ficam os discursos e as promessas para mais tarde avaliar e não se trata de profecias do”Restelo”... trata-se apenas do esvaziamento daquela que deve ser ideologia e prática política do poder autárquico – servir a causa pública e estimular o desenvolvimento.

Do PS local e dos seus dirigentes fica a marca de um liberalismo económico defendido como missão, a separação das águas face ao histórico legado das esquerdas (justiça social, defesa dos direitos, quer humanos quer ambientais) e o longo namoro, que agora é casamento com comunhão de bens, com todos os interesses locais  (e internacionais, devido ao paraíso global) que se recrutaram nas mais conhecidas promiscuidades – poder político, poder económico-financeiro, poder simbólico que alia o prestígio das classes dirigentes à partilha moral, religiosa e de todos os meios sociais e culturais de promoção de imagens e de práticas distintivas (de reprodução de vontades e favores e de selecção de todos os “novos ricos” que ascenderam ao clube). Tudo ficará mais composto com os desejos de municipalização (na educação, na saúde, na assistência social) que acentuarão o controlo social destes pequenos-grandes poderes. Não. A nossa prática de cidadania infelizmente não é experiente, esclarecida, reinvidicativa e transformadora como noutras regiões da Europa. As marcas da ausência de liberdade e de participação, da perseguição, do compadrio, do clientelismo, do favor e da recompensa, ainda são os nossos fantasmas. Ainda nos vemos como os senhores, os vassalos e os servos que vêem na sorte ou na protecção a solução das injustiças. E depois há um senhor presidente visto como sebastião... que vende propriedades públicas a preço inferior a propriedades que compra (com visto de iluminado e gestor de legados que não foi Deus ou a herança que deu), que esvazia a intervenção da Câmara transferido a pouco e pouco todos os sectores de interesse e protecção pública para o domínio empresarial, que investe dinheiros públicos em propaganda e serviços de imagem (alegando dificuldades financeiras para impulsionar medidas de apoio e inclusão sociais ou de reabilitação e revitalização urbanas com ligações à acessibilidade habitacional ou à promoção da cultura e identidade locais), que  aposta na gestão securitária para resolver problemas sociais (criação de uma polícia municipal quiçá também para afastar toxicodependentes, arrumadores, traficantes, imigrantes e minorias com manias de costumes diferentes e de tradições itinerantes), que se passeia por inúmeras capitais, mais ou menos distantes, para captar investimento ou para o reproduzir como embaixador de negócios, missão tornada essencial para quem se acha visionário sem dar troco ao erário público e cegando totalmente as potencialidades da terra (ria, pesca, marisqueio, salinicultura, indústria conserveira, artesanato e agricultura tradicional) e  a aposta no valor e experiência dos recursos humanos locais.

Felizmente há resistência. E no Bloco de Olhão, com a nossa consciência e habitual empenho, lutaremos para ser a outra voz e a outra alternativa, ao lado das populações e da defesa dos recursos locais. Temos propostas e soluções que neste quadro político dificilmente serão implementadas, mas que nunca adormecerão nas reivindicações e lutas e nas práticas de cidadania que apoiaremos. Resta o papel de fiscalização, de denúncia e mesmo de cooperação (em caso de manifesta utilidade pública) face ao poder instalado. Resta a auscultação e apoio às populações locais, quer em termos de informação e conhecimento sobre problemas e reinvidicações, quer na transformação quotidiana da realidade no sentido de uma maior justiça e equilíbrio social e na superação de todas as discriminações e desigualdades.

BLOCO OLHÃO – Rogério Neto