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OLHÃO E O TURISMO NÁUTICO

OLHÃO E O TURISMO NÁUTICO

O turismo náutico é um tipo de turismo cada vez mais em moda e com tendência à massificação, estando relacionado com a prática de atividades como a navegação à vela ou iate mas também com a procura de equipamentos e infraestruturas de abastecimento, segurança, parqueamento e de lazer que se instalam nas zonas ribeirinhas ou de ancoradouro com vista à satisfação deste tipo de “viagem mais ou menos temporária”.

As marinas e os portos de recreio são as infraestruturas mais utilizadas pelo turismo náutico, o que eventualmente poderá ajudar a economia local através da prestação de alguns serviços, mas no caso específico de Olhão são maiores os constrangimentos e impactos negativos que, por serem estruturais, apresentam difícil solução.

Se a infraestrutura  e a área de navegação se encontrar em mar aberto as vantagens poderão ser muitas e sem grandes inconvenientes. No caso do projeto para Olhão, em que o porto de recreio e a área de navegação se encontram em plena Ria Formosa, colocam-se todos os problemas ambientais e socio-económicos que daí advêm. Não nos podemos esquecer que a Ria Formosa é um sistema lagunar de importância internacional, considerada área protegida e classificada como zona de proteção especial, para além de constituir um abrigo e “maternidade” para recursos de pesca que, utilizados de modo sustentável, têm contribuído historicamente para o desenvolvimento de atividades económicas locais que estão na base do sustento de inúmeras famílias e que cumprem um papel importante na qualidade de vida da região (dieta mediterrânica; abastecimento da restauração e da população através de um comércio de proximidade).

O excessivo desenvolvimento da náutica de recreio pode pôr em risco um equilíbrio ecológico que neste momento já se encontra seriamente ameaçado. Trata-se da abertura do tráfego a centenas de barcos e aos seus potentes motores que constituem uma séria ameaça à biodiversidade (novas formas de poluição intensiva que afetarão a sustentabilidade das funções da ria na preservação das espécies). Por outro lado, em muitos desses iates vivem pessoas e coloca-se o problema de como descartar/guardar os dejetos. Os barcos normalmente têm um tanque de contenção fixo onde os detritos são armazenados e para onde são lançadas “ bombas de ácido “ para acelerar a degradação dos detritos sólidos. Mesmo que estes depósitos sejam despejados no mar duvida-se que tal seja feito em alto mar, a mais de três km da costa como seria desejável, para já não falar do problema de todos os detritos resultantes da lavagem e manutenção dos barcos ancorados que afetam diretamente a ria. Observa-se assim uma constante ameaça ao ambiente, criando-se mais um problema para a Ria, já sobrecarregada com os esgotos urbanos e com as fossas da Ilha da Armona.

Por outro lado, a anunciada expansão do porto de recreio, para nascente, e a forma como a ampliação se projeta, parecendo querer “ ocupar “ a frente dos mercados, é mais um aspeto negativo a considerar. Um autêntico muro de barcos que prejudica a relação visual com a Ria e a preservação da imagem global de açoteias e mirantes que identifica a cidade cubista. Ao mesmo tempo a inevitável deslocalização das embarcações tradicionais da pesca artesanal e das atividades típicas inerentes e complementares, o que destruirá modos de vida únicos e autênticos que fazem parte de uma apropriação popular das zonas ribeirinhas cada vez mais procurada por um turismo de raiz cultural que procura o multiculturalismo e as identidades locais e evita todas as ofertas massificadas e indistintas. É neste tipo de turismo que se deve centrar a estratégia de captação de divisas e receitas, fundamental ao desenvolvimento do nosso concelho.

Pelas razões antes referidas, não podemos concordar com os aumentos previstos do número de amarrações no porto de recreio de Olhão.

Ivo Madeira