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CRÓNICAS DO REINO DE OLHÃO: Guerrinhas de sucessão

a verdadeira polarização das pseudo-sondagens: cultivar o sonho americano

CRÓNICAS DO REINO DE OLHÃO: GUERRINHAS DE SUCESSÃO

 

Era uma vez dois príncipes que nasceram muito simpáticos para o povo, com sorrisos escancarados de quem acha que está tudo bem e que aprenderam muito rapidamente a convencer e a conter os descontentamentos da plebe nesse reino de seus pais: dou-lhe a minha palavra que tudo se vai resolver (pancadinha nas costas e aperto de mão insistente), vou já marcar uma reunião para que a situação se altere (pancadinha nas costas e aperto de mão insistente), como vai a família, o gato e o cão? (pancadinha nas costas e aperto de mão insistente), vou já dar uma palavrinha às cortes para que tudo fique como deve ser (pancadinha nas costas e aperto de mão insistente), não há problema que tudo será agendado (pancadinha nas costas e aperto de mão insistente), depois contacte a nossa secretária (pancadinha nas costas e aperto de mão insistente). Não é que convivessem muito pois viviam em palácios diferentes e tinham perceptoras também diferentes, assim como padrinhos também diferentes, mas lá se iam encontrando na iniciação à caça da raposa, nos festins de dança de ventre nos salões da corte, nos exames de empreendedorismo mercantil que adivinhavam percursos diferentes, nos cargos experimentais que iam frequentando para ganhar algum calo (e alguns infortunados dissabores), sempre com recomendações premeditadas de quem quer o melhor para os filhos e para o sangue azul que só alguns têm o condão de possuir… também frequentavam, como todos os infantes, as aulas de bem cavalgar em toda a sela, de florete e espadachim e outras tantas artes que cultivavam o corpo e a preparação para a guerra, que isto de adivinhar o futuro nem as fadas madrinhas o podiam garantir.

Entretanto passou o tempo, aí uns cerca de 40 anos, e os descontentamentos da plebe continuavam – bem que a corte se tinha apetrechado de novas necessidades, desde escriturários a doutores de leis, bem que tinha construído castelos, palácios, solares para abrigar jardineiros, estribeiros e serviçais de várias competências, bem que tinha doado terrenos à santa igreja para proteger os órfãos, os ilegítimos e a mendicidade galopante e também aos burgueses emergentes para a construção de casas menos apalaçadas, bem que tinha concedido forais para exploração de terras e viveiros, permitindo o alargamento do burgo que já extravasava as muralhas, bem que tinha construído caminhos para os coches e outros para as bestas de toda a proveniência, novos poços para abastecimento de águas, sistemas mal amanhados para disfarçar o cheirete dos esgotos e a ameaça das baratas, dos ratos e da peste… até tinham corrido reinados amigos para copiar projectos mais modernos… desde entrepostos comerciais, a cais novinhos em folha para todo o tipo de naus, a jardins “renascentistas”, a saraus e feiras de toda a espécie e feitio.

Mas o espectáculo e todo o foguetório, apesar do reconhecimento, era sol de pouca dura… a barriga apertava e doía com as crises da fome, a esmola de banco alimentar obtida no adro em momentos de missa não durava sempre, da terra e do mar mal a subsistência conseguiam, os impostos e as dízimas subiam a pique o que muitas vezes significava dívida e vedava o acesso aos poços e aos casebres de palha onde muitos já tinham nascido. Enfim… ou entravam por misericórdia para os serviços do reino, ou migravam, ou amanhavam-se na sopa dos pobres, na pequena gatunagem ou no contrabando… sem enquadramento… pois não havia robin dos bosques. Pensou a corte em duas estratégias: por um lado esconder a realidade inconveniente lá para os arrabaldes do castelo, pois os visitantes embaixadores e todos os almocreves e mercadores apenas frequentariam o “centro ribeirinho” dos espectáculos e dos bem falantes; por outro lado dar alguns privilégios, pancadinhas nas costas ou apertos de mãos insistentes aos homens-bons que passavam a querer representar a populaça na fase de abertura das cortes. Não resultou: se bem que na tradição muitos se tornaram assim como uma espécie de vassalos (quase cegos, surdos e mudos para não levantar problemas), outros optaram por ser arautos no sentido de paladinos e lá foram chateando a ordem das coisas. Cá fora outros. Os que sempre espalharam mensagens de revolta rompendo com os editais. Homens de vários ofícios que ousaram erguer vozes e protestar. Alguns viajantes esclarecidos que sempre foram habituados a participar com projectos de mudança. Esperarão ser mais para mais chatear, mas têm a consciência de que se o reino se mantiver nas linhas sucessórias tradicionais muito pouco se alterará.

E no meio disto tudo… os príncipes? Um tornou-se rei com todo o aparato e pompa, dotes e reconhecimento dos donos do império e tirou o aparato e pompa aos colegas ainda príncipes e também a algumas princesas com quem não quis casar ou partilhar leito. Continua a insistir que a sua lei e mente têm inspiração divina, mas o que é certo é que o seu sangue é mais azul do que o do outro. O outro, o de sangue azul clarinho, conspira a sucessão com castelhanos e afins, esforçou-se por se abrir a novas ideias, recorreu a copistas e nobres também cavaleiros que aprenderam a mesma arte de cavalgar em toda a sela, diz que abandonou a corte mas ficou com o chaveiro suplente aspirando lá voltar, nem que seja por saudade de votar diplomas régios que nunca recusou ou pelo charme de não descompensar donzelas amigas que agora se sentem perdidas.

Parece que são o centro das atenções nas intrigas dos arautos e dos cronistas da corte.

Mas a populaça está farta! Já lá vão quarenta anos… ainda se houvesse um duelo de capa e espada, umas chapadinhas de luva branca no meio dos saraus ou das chamadas avenidas, um entornar discreto de uma taça de espumante na jaqueta bordada do inimigo público número um… mas nada… o espectáculo tem encenação, roteiro e argumento de cordel mas falta-lhe acção! Nem tão pouco conseguem interessar e implicar a verdadeira oposição e a assistência…

Resumindo. Entretenham-se. Ser ou não ser rei, eis a questão. Mas cuidado que a república espreita e a populaça quer é qualidade de vida para todos no reino de Olhão!