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CRÓNICAS DO REINO DE OLHÃO - D. Pina, o Marcador (ou mercador)

CRÓNICAS DO REINO DE OLHÃO

D. PINA, O MARCADOR (OU MERCADOR)

 

Foi vice-rei e agora é rei e rei quererá ser! Chegou sebastiãozinho de promessas, com a arca cheia de ensinamentos e de negócios, com as costas largas da experiência e do poder dos que o abençoaram e quer deixar marca – daí que o cognome seja o marcador, aquele objecto de tinta grossa que sublinha as agendas de mercado (há sempre a alma de um mercador que navega em oceanos de oportunidades e que nega a história e os erros do passado), que assinala as prioridades de marketing, propaganda e imagem de si (há sempre o ego de despotismo que se quer esclarecido, com toques de cosmética, de etiqueta e de culto de personalidade no palco, mas com tiques de autoritarismo, prepotência e mau fígado ou paté nos bastidores), que censura ou esconde os constrangimentos e contrariedades de uma administração opaca, que destaca quem gosta do elogio fácil ou da troca de mimo.

O Mandato que é reinado, o concelho que é feudo, o futuro que é visão divina de capricho e epopeia, o poder que é a corte e a embaixada mercantil de privilégio régio, os outros que são os súbditos, os vassalos ou os conspiradores das bombas, os viveiros, os resorts, as marinas e os hotéis que são os castelos e as coutadas, a postura que é a verdade absoluta de inspiração divina, superior, acolchoada no berço, nos secretismos iluminados e nos golpes palacianos de toda a estratégia e propaganda

E pronto! Se não apreciam vão-se embora que isto de se armar em “desejado” dá trabalho.

Os verdadeiros heróis envelhecidos que nasceram e viveram na ria e no mar recebem uma medalhinha, o nome numa ruela ou beco, ou qualquer outra prenda, nem que seja uma casinha modesta e social fora do burgo ou uma cama na hospedaria amiga que recolhe quem já deu o que tinha a dar; as algazarras no jardim ou nas praças, as escarradelas na calçada, os urros pelo olhanense, o humor que espreita na esquina, o reparo de redes ou a azáfama das fainas, a sardinha assada nas ruelas da zona histórica, a roupa estendida, a rua varrida, o bradar pelo neto que venha almoçar, o dominó e as cartas mais o jogo da malha ou da petanca, o regatear de preços quando há que vender – móce, isse sã nevelas para a Gorda… a realidade vai ser o nosso Versailles. Casas de açoteia e piscina e outros empreendimentos para nobres em viagem. O castelo-hotel para bailes e outras festas em artifício, banquetes reais e encontros de embaixadores empreendedores e de honoráveis vassalos, spa’s, massagens e aeróbicas para damas e donzelas que agora também já marcham e dançam ritmos de escravos com bravura nos salões da moda. A passadeira vermelha da zona ribeirinha transformada em calçadão tropical, o novo passeio público como montra da corte, entre vénias, degustações nos novos mercados, eventos sem ter fim que tomam o nome de sunset quando o sol se põe lá para os resorts das ilhas, sem perigo de atropelo porque os coches ficam mais além, os operadores do mercado foram para a docapesca e os toxicodependentes e arrumadores foram pintar graffitis em edifícios históricos ou em fábricas de conservas que foram garagens, que são ruínas e que serão hipermercados ou centros comerciais (arte efémera na cidade dormitório que adormece). Também os afamados jardins sem fontes e estátuas mas com todos os apetrechos de ócio necessários – solário, rampas para molhar o pé na babuja da ria (que não se trata, pois o perfume francês resolve a falta de higiene), apetrechos de ginástica para moldar aparências até afogar o fim da tarde nos drinks sociais dos barzinhos ecológicos que nascem dos canteiros, talvez as praias fluviais artificiais para estender a esteira, mirar os veleiros, os mastros de todos os tamanhos e os desportos náuticos de todas as modalidades que conquistaram a ria, tirar os óculos da moda e folhear avidamente a tv caras ou qualquer número do boletim municipal ilustrado.

Os críticos, alternativos, descontentes, lutadores de causas, defensores do povo, do desenvolvimento, da justiça social e de outras utopias, boateiros e desestabilizadores resistem, apesar das intrigas e golpes da corte que chicoteiam paciência e bom senso ou dos caminhos vedados que impedem a mudança, até que todo o povo acorde e que cresça a revolução, sem cabeças a rolar mas com novas cabeças que se irão juntando, também de gente iluminista que não vende a arte nem o espírito e que criará novos mundos de liberdade, igualdade e fraternidade… ou terão de se adaptar – podem entrar para a corte, cumprindo ritos de passagem, onde usufruirão de títulos para novo rico ou para artista protegido, com cargos que vão do bobo domesticado ao ministro da propaganda, passando pelo arauto, encantador de serpentes, cuspidor de fogo, pintor do tecto da câmara sistina ou da divina autoridade em pose ou ainda dos feitos em Moçambique, Brasil, França, China e noutros impérios ou colónias mais ou menos afamados, fotógrafo das evidências da corte, “cultivador” de jovens e de artistas da terra com mesadas de pais carinhosos, emplastros de relacionamento público que retiram louros das coroas dos artistas da corte, divulgadores de cultura com pedido de esmola que conhecem bem os donos e que promovem desde a arte de rua, ao espetáculo de consagrados, ao cinema, ao teatro, ao folclore inventado que vai dos expositores humanos de trajes às marchinhas e sambinhas aculturadas; podem também dedicar-se ao empreendedorismo social ou ao chamado novo sector da economia social, espiando os pecados do coletivo na salvação individual de almas – acções caritativas e misericordiosas ligadas à espiritualidade ou ao bem-fazer; carinhos, sopinhas, roupinhas e palavrinhas aos infortunados da vida, nas ruas e nos lares; podem ainda, zangados com os homens, eleger os animais como filhos ou a simplicidade da natureza e da recolecção como o paraíso na terra; também poderão calçar os chinelos e curar o stress nos audiovisuais caseiros, nas tecnologias da distância e, por vezes, nos convívios fugazes de casais amigos na casa de cada um; ou então fogem pelas janelas das oportunidades, migram, dão de frosques, inventam novos quotidianos em terras de anonimato, enriquecendo experiências pessoais e currículos que dificilmente serão aproveitados, ou em locais remotos onde leva mais tempo a chegar a “quarteira dos dias” ou a “albufeira do destino”, ou a “praia da rocha de todos os sonhos” – talvez um dia regressem, como turistas, à terra natal que não era turística mas que se massificou, ou como homens de negócio e investimento, pois sempre haverá uma nova oportunidade neste reino do marcador (ou mercador) para os mais variados tratados de compra e venda: de marcas, de imagens, de cargos e funções, de propriedades.